Este post faz parte da série Arquétipos, possuindo a mesma introdução antes da análise do filme.

Em muitos lugares, o primeiro contato de uma criança com conceitos sobrenaturais se dá nas práticas culturais da própria sociedade a qual pertence. No mundo ocidental urbano, isso se torna cada vez mais raro e a introdução ao universo “mágico” acontece, em grande parte, através de livros e filmes voltados ao público infantil.

As obras cinematográficas, especialmente dos grandes estúdios como Disney, Pixar e Dreamworks, terminam por pre-moldar a primeira visão que se tem sobre espiritualidade, independente da religião que os pais porventura queiram ensinar a criança.

Há quem veja esse fato de uma maneira extremamente negativa. Vocês provavelmente já os viram por aí, berrando aos quatro ventos que certos desenhos são coisas do capiroto para desviar os inocentes do bom caminho. Exortam todos os pais “conscientes” a não deixar esses “lixos da Nova Era” entrar nos domínios do seu lar (sim, estou falando com você que rasgou o livro do Harry Potter do seu sobrinho).

Mas será assim tão perigoso sujeitar uma criança a arquétipos ancestrais presentes no mundo, quer você queira quer não, há milhares de anos antes da sua existência?

Será mesmo saudável privar alguém da sabedoria e tolerância que a diversidade de crenças pode ensinar?

Serão analisadas apenas as animações que apresentem algum aspecto mágico em seu enredo, como arquétipos da bruxa, xamã, mago etc.

CUIDADO com os spoilers! A partir daqui está por sua conta e risco.

Vejamos se os grandes clássicos são assim tão diabólicos…

 

Fantasia (1940)

 

Arquétipos presentes

Lançado no mesmo ano de Pinóquio – carregado de simbologia maçônica – Fantasia, de 1940, vai pelo mesmo caminho. Trata-se de um dos projetos mais inovadores de Disney, concebido para lançar a animação a um patamar superior ao de entretenimento infantil. E, em termos de bilheteria, falhou miseravelmente.

Naquela época, Walt estava empolgado com suas experimentações (chegou a fazer parcerias com Salvador Dali e cogitou borrifar essências durante a exibição do filme para completar a experiência sensorial). Era um visionário. Decidiu então fazer um longa sem diálogos, conduzido apenas por música clássica orquestrada (ousado, o rapaz!) com imagens simbólicas e abstratas em cenas que aparentemente pertenciam a histórias distintas. Pagou caro, o rapaz.

Se Disney não conseguiu representar suas ideias de maneira eficaz ou o público é que não estava preparado para absorver sua genialidade, não me cabe julgar.

O curioso é que a versão de 1940, uma catástrofe para seu ano de lançamento, com o passar do tempo foi encontrando seu público e seus números aumentavam a cada sete anos. Fantasia 2000 (mesmo conceito, novo roteiro), feita como homenagem ao legado de Walt, nem depois de muitos anos rendeu seu custo aos cofres.

Dividido em 8 sequências, Fantasia (1940) exibe em seu programa:

 

Tocata e Fuga em Ré Menor, de Bach

Totalmente abstrato, apenas trabalhando com linhas, formas e nuvens que refletem os sons e ritmos da música. Sem um “gancho” inicial para a história, metade da platéia já se retira. Os que permanecem, entretanto, são tomados por um inexplicável senso de compreensão a medida que a película avança, chegando mesmo a prever alguns movimentos.

Isso acontece por causa da íntima relação da energia sonora com nossa existência. Diz a Bíblia, e não só ela, que no início era o vazio, o nada. E então Deus disse. A criação através da palavra, do som, da música, é mitologia bem estabelecida no mundo. O som reverbera um pensamento e multiplica sua intenção (por isso temos medo de falar de coisas que não desejamos atrair).

Essa sequência simboliza as frequências de energia que estão por trás de tudo no Universo e que, portanto, regem (Arquétipo do Maestro) todas as demais histórias do filme. Claro que uma criança dificilmente chegará a essa conclusão, ficando apenas entretida (ou entediada) com a cena. Não, não são mensagens subliminares feitas para hipnotizar o cérebro dos pequenos para adorarem o capeta. Disney e seus animadores tinham mais o que fazer.

 

Energia se fazendo visível no elemento água

Energia se fazendo visível no elemento água

 

Suíte Quebra-Nozes, de Tchaikovsky

Não tem nada a ver com o Quebra-Nozes. Representa as mudanças de estação, com fadas, peixes, folhas, cogumelos e flores dançando valsas e outros ritmos. O valor estético se impõe, com arranjos de simetria geométrica e musical. Simboliza a sobreposição de duas linguagens (sonora e matemática) expressando a mesma coisa: os ciclos da Terra – sua “dança”.

Fadas dançando com cristais de gelo e peixes numa formação geométrica

Fadas dançando com cristais de gelo e peixes numa formação geométrica

Ala das flores colorindo a Sapucaí

Ala das flores colorindo a Sapucaí

Essas experimentações serviam também para Disney testar novos movimentos e dinâmicas nas animações e muitos dos elementos eram reaproveitados em outros filmes.

 

O Aprendiz de Feiticeiro, de Dukas

Carro-chefe da obra, o papel-título foi pensado inicialmente para o Dunga (Dopey), de Branca de Neve e Os 7 Anões. Realiza o Dunga se entendendo com as vassouras mágicas! Sem dúvidas um personagem carismático e com muito mais experiência em ser estabanado e usar mangas compridas. Mas Walt deu a vez a seu filho favorito e promoveu o camundongo.

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O ícone máximo das duas versões, 1940 e 2000, é o arquétipo do Aprendiz de Feiticeiro, incorporado na figura de Mickey Mouse. É a junção do arquétipo do Aprendiz (de carpinteiro, ferreiro, escritor, artesão ou qualquer outro) com a do Feiticeiro ou Mago (como Merlin). Não é a toa que usam ele como holograma de atestado de autenticidade em seus produtos. É a própria personificação de Walt, o mago da animação, se considerando humilde ao assumir suas imperfeições de aprendiz e, ao mesmo tempo, poderoso em sua arte. Eternamente, e sabiamente, um projeto incompleto. Daí a identificação e empatia.

Ah, a nostalgia da VHS verde... tinha aposta pra ver quem ia rebobinar a fita.

Ah, a nostalgia da VHS verde… tinha aposta pra ver quem ia rebobinar a fita.

É um arquétipo praticamente inesgotável em possibilidades (Harry Potter que o diga) e a Disney é fascinada com ele. Tanto que fizeram O Aprendiz de Feiticeiro (2010) estrelando (gasp!) Nicolas Cage. É duro quando vemos um arquétipo tão amado e promissor reduzido a produções de segunda do mesmo estúdio que criou A Espada Era a Lei, mas isso não vem ao caso.

Em Fantasia, o aprendiz foi inspirado em um poema do século XVIII, Der Zauberlehrling, do alemão Johann Wolfgang von Goethe. Goethe, por sua vez, inspirou o francês Paul Abraham Dukas a compor um poema sinfônico, L’Apprenti Sorcier (1897). Disney juntou o texto de Goethe com a música de Dukas e introduziu a terceira variável – sua animação interpretativa:

O feiticeiro Yen Sid (Disney ao contrário) dá a seu aprendiz a incumbência de encher um caldeirão com água de uma fonte. Mickey acha a tarefa tediosa e, na ausência de seu mestre, apossa-se do chapéu do mago, que representa o conhecimento deste, e encanta uma vassoura para fazer o trabalho por ele. Isso é a alegoria do poder usado para fins mundanos e o aprendiz sofre as consequências – a vassoura se descontrola e começa a alagar todo o recinto. Mickey decide resolver um problema causado por mau uso da magia com violência e, munido de um machado, parte a vassoura em vários pedaços. Novamente paga o preço: os pedaços se tornam novas vassouras, multiplicando o problema.

O tema do aprendiz de magia e seu mote de como o feitiço ou tecnologia pode virar-se contra quem o usa é recorrente em várias obras (Strega Nona, O Toque de Midas, Frankeinstein etc). O próprio Goethe (alquimista, astrólogo e Illuminati) foi influenciado por Luciano de Samósata, escritor grego autor de Philopseudes (significa “amante de mentiras”). Numa das passagens dessa obra (uma sátira a superstição e crendices), o arquétipo do feiticeiro é vivido por um sacerdote de Ísis.

 

Sagração da Primavera, de Stravinsky

Mostra toda a evolução da Terra, desde sua formação, os primeiros organismos até o domínio e queda dos dinossauros. Deveria se chamar “Ode a Darwin”, para horror dos criacionistas. Dizem, inclusive, que o plano era estender a sequência até o aparecimento da raça humana e a descoberta do fogo, mas isso foi abortado para evitar represálias de fundamentalistas.

Não contente em mostrar a evolução de peixes para animais terrestres, Walt também fez questão de retratar um Archaeopterix muito bem emplumado.

Não contente em mostrar a evolução de peixes para animais terrestres, Walt também fez questão de retratar um Archaeopterix muito bem emplumado.

Vendo os dinossauros de Disney, fica muito difícil não concordar que The Land Before Time (Em Busca do Vale Encantado) de Don Bluth e Steven Spielberg em 1988 não tenha se inspirado aqui. Fantasia é um dos filmes favoritos de Spielberg. Espia:

Dinos de várias espécies icônicas tendo sua prole em miniatura. Check.

Dinos de várias espécies icônicas tendo sua prole em miniatura. Check.

Dinos ladrões de ovos. Check. Só que enquanto Spielberg usou um Oviraptor, Disney optou por um Hyperodapedon.

Dinos ladrões de ovos. Check. Só que enquanto Spielberg usou um Oviraptor, Disney optou por um Hyperodapedon.

Momento "Oh, aí vem o tiranossauro!" Check.

Momento “Oh, aí vem o tiranossauro!” Check.

Herbívoros de grande porte se defendendo do T-rex com o uso de suas poderosas caudas. Check. Tanto o Estegossauro quanto a mãe do Littlefoot, que deus a tenha, levam a pior. E se você não chorou nesta cena, eu não divido minha merenda com gente em quem não confio.

Herbívoros de grande porte se defendendo do T-rex com o uso de suas poderosas caudas. Check. Tanto o Estegossauro quanto a mãe do Littlefoot, que deus a tenha, levam a pior. E se você não chorou nesta cena, eu não divido minha merenda com gente em quem não confio.

Dinos comendo os últimos gravetos que sobraram e finalmente migrando em busca de terras mais verdejantes. Check.

Dinos comendo os últimos gravetos que sobraram e finalmente migrando em busca de terras mais verdejantes. Check.

Pegadas gigantes de Dinos. Check. Parecem frames do mesmo filme, não é? Vai dizer que você não vê o Littlefoot correr para aquele paredão rochoso pensando ver a mãe dele?

Pegadas gigantes de Dinos. Check. Parecem frames do mesmo filme, não é? Vai dizer que você não vê o Littlefoot correr para aquele paredão rochoso pensando ver a mãe dele?

Quanto a música que embala a sequência, Igor Stravinsky era então o único compositor a ter sua obra usada no filme que ainda estava vivo durante seu lançamento. Ao saber do interesse de Disney, se ofereceu para compor uma peça inédita para a obra. A oferta foi recusada e Stravinsky detestou a orquestração e rearranjo da peça original feita pelo maestro Stokowski (as seções não eram tocadas na ordem e algumas estavam mesmo ausentes). De fato, Disney usava as músicas oportunamente, de acordo com o que sua mensagem queria passar e não como uma homenagem aos compositores clássicos. Por isso suscitou, na época, o mesmo repúdio de rappers fazendo samples. Como Stravinsky era o único vivo, era o único a ter direito ao mimimi.

 

Sinfonia Pastoral, de Beethoven

Beethoven nem sonhava que um dia os pacatos animais da fazenda que inspiraram sua composição seriam reinterpretados como uma miríade de criaturas mitológicas como sátiros, unicórnios, pégasus e centauros. Os pequenos cupidos estão concentrados na mui nobre tarefa de formar pares entre os centauros. Metade cavalo/égua, metade homem/mulher, os seres se preparam para um evento primaveril.

Os querubins lançam mão de todos os artifícios estéticos para chamar a atenção dos centauros para as centauras: escovam seus cabelos, criam arranjos de cabeça mirabolantes, passam batom nelas e tem até uma mucama negra pra lixar seus cascos. Esta cena, graças a São Bom Senso, foi excluída do filme.

"Tá ótimo, querida! E depois aquela progressiva, tá?"

“Tá ótimo, querida! E depois aquela progressiva, tá?”

As centauras são sexys. Ok. Elas estão trabalhando a auto-estima com a incrementação de sua aparência para um encontro romântico. Ok. Mas fica aquele eterno tom blasé de tédio, com gestos artificiais e lânguidos.

Ela só não dá beijinho no ombro prazinimiga porque funk não está a sua altura.

Ela só não dá beijinho no ombro prazinimiga porque funk não está a sua altura.

Até na hora do banho é como se fosse uma mistura da Victoria Secrets com The Walking Dead.

 

Sim, são peitos. As crianças são mais familiarizadas com eles do que os adultos. Tudo muito natural.

Sim, são peitos. As crianças são mais familiarizadas com eles do que os adultos.

 

Não fizeram o pipiu dos querubins porque “anjos não têm sexo”. Salvos pelo gongo!

Não fizeram o pipiu dos querubins porque “anjos não têm sexo”. Salvos pelo gongo!

O grande festival da fartura, com direito até a Bacco e uma enxurrada de vinho tinto, ia muito bem até que, do alto das nuvens, Zeus acorda. Vulcano forja seus raios e Zeus, brincando de dardos, se diverte tentando acertar o pessoal lá embaixo. É a fúria dos deuses representada no poder inexplicável dos elementos naturais.

Oh meus Zeuses, já sei de onde tiraram inspiração para Hércules.

Oh meus Zeuses, já sei de onde tiraram inspiração para Hércules.

O que Walt quis dizer foi algo como “o que unicórnios, pégasus, sátiros, centauros e deuses que brincam sem propósito com suas criaturas têm em comum?” Eles existem, mas só no plano da sua imaginação.

Dança das Horas, de Amilcare Ponchielli

Adaptado da ópera La Gioconda, o balé é executado comicamente por uma trupe improvável: os dançarinos da manhã são Madame Upanova e suas colegas sonolentas  (avestruzes). Os do meio dia são Hyacinth Hippo (hipopótama com nome de flor) e suas aias. Os bailarinos da tarde são Elephancine e sua trupe (elefantes) e os da noite, Ben Ali Gator e sua tropa (jacarés).

Dança sem fronteiras

Dança sem fronteiras

Mais uma vez, a noite, o obscuro, é vivido por um animal que representa perigo. Não que um hipopótamo desgovernado não seja letal, mas o jacaré é o único carnívoro do grupo. Quando Ben Ali Gator observa furtivamente a hipopótama dormindo, temos dúvidas se ele quer jantá-la ou dançar com ela. No mais, é um número que mostra como os períodos do dia (manhã, meio-dia, entardecer e noite) se sucedem até o final dos tempos, em semelhança a “dança dos ciclos” do segmento da Suíte Quebra-Nozes.

Curiosidade – avestruzes fêmeas, em contraste com as plumas alvinegras dos machos, são pardas. Mas poucas pessoas sabiam disso na época e a imagem da avestruz preta e branca era consagrada no imaginário local, além do contraste das cores funcionar muito melhor na coreografia. Então, apesar dos longos cílios, lacinhos e sapatilhas de ponta, as avestruzes da cena são biologicamente machos!

E eles arrebentam, diga-se de passagem.

E eles arrebentam, diga-se de passagem.

 


Uma Noite no Monte Calvo, de Modest Mussorgsky

Esta sequência foi retirada da película após o lançamento porque os estúdios Disney ficaram soterrados de cartas de pais dizendo que a cena assustava seus filhos (depois de um tempo, ela foi re-inserida no longa). Aham. Sei. E as cenas da bruxa em Branca de Neve, tão apavorantes quanto, não assustaram os pequenos, né? Não sei bem se foram as crianças que ficaram assustadas com o que viram…

Garotinha chorando porque a mãe não queria comprar o filme “do bonequinho” (Brinquedo Assassino). Da série Why my kid is crying (porque meu filho está chorando) em themetapicture.com

Garotinha chorando porque a mãe não queria comprar o filme “do bonequinho” (Brinquedo Assassino). Da série Why my kid is crying (porque meu filho está chorando) em themetapicture.com

Agora, se alguns pais tem problemas porque o astro da sequência é o arquétipo do demônio, Chernabog, aí é outra história. Inspirado na mitologia Eslava, Czernabog (Proto-Eslavo: čĭrnŭ “negro” e bogŭ “deus”) é um “deus negro”, contraparte de seu irmão bondoso Belobog, “deus branco” da luz e do sol. Aquela dualidade forçada de sempre, né? Acompanhe o raciocínio primitivo: de noite ficamos mais desprotegidos contra feras. De dia a maior visibilidade nos protege. A noite é escura. O dia é claro. Logo… preto = mal / branco = bem.

Segundo os historiadores, não há nem mesmo certeza de que Czernabog e Belobog eram vistos dessa forma na mitologia Eslava. Isso porque, adivinha quais as únicas fontes que afirmam que Czernabog era o coisa ruim? Isso. Padres cristãos. De fato, o mais condizente com a mentalidade pagã nórdica é que as duas divindades sejam aspectos do mesmo deus (ponto pro Neil Gaiman), simbolizando a desolação do inverno (sem sol) com o renascimento do verão/primavera (ê, solzão).

Chernabog também foi inspirado, em parte, no diabo Mefistófoles, do poema “Fausto, uma tragédia” (e que tragédia!), de 1808 – Olha Goethe dando as caras de novo! Seu Mefistófoles faz uma aposta com Deus de que consegue ganhar a alma de Fausto, um sábio que tenta aprender tudo o que pode ser conhecido em benefício da humanidade. Assim como em Jó, no Antigo Testamento (Jó 1, 20-21), o diabo perde a aposta.

Cena de "Fausto" (1926), de F.W. Murnau que pode ter inspirado o início da sequência de Uma Noite no Monte Calvo.

Cena de “Fausto” (1926), de F.W. Murnau que pode ter inspirado o início da sequência de Uma Noite no Monte Calvo.

Como se pode ver, o demônio que busca almas para fazer pactos em troca de vantagens é um arquétipo muito antigo. Simboliza a tentação, o dilema de como alguém pode atingir fama, poder ou qualquer meta sem corromper o caráter no processo. Há quem ache isso tão improvável que prefere acreditar que pessoas de sucesso só podem ter feito pacto com o tinhoso.

Mas, enfim, em Fantasia, Chernabog é um demônio que se diverte manipulando as almas. Justo quando estava começando a se divertir, ouvem-se badaladas de sinos anunciando os primeiros raios da aurora e… Chernabog deixa as almas em paz e se recolhe amedrontado, não suportando o som que precede a luz. É essa a terrível besta-fera que vai assombrar o sono das crianças? Elas assistem coisas piores, creia.

Blém! Blém! “Ahhhh, só mais 5 minutos…”

Blém! Blém! “Ahhhh, só mais 5 minutos…”


Ave Maria, de Schubert

Seguida da deixa dos sinos da cena anterior, que funcionam praticamente como um exorcismo, é a sequência final de redenção. Todas as outras são instrumentais, mas nesta pode-se ouvir as vozes de um coro executando a peça enquanto uma procissão (carregando luzes) percorre uma floresta. Em algumas cenas, os galhos das árvores sugerem arcos de catedral.

Nenhuma construção humana jamais será tão grandiosa quanto a Natureza e, portanto, mais digna de representar a morada dos deuses.

Nenhuma construção humana jamais será tão grandiosa quanto a Natureza e, portanto, mais digna de representar a morada dos deuses.

É a Fé (não necessariamente religião) que afasta o mal que aflige as almas. Se quiser saber qual a outra forma de lidar com o mal, continue lendo até o item Simbologia/alegorias/metáforas no final.

Como o simbolismo do sol como salvador e luz do mundo é muito forte nesta obra, o filme termina com cortinas se abrindo para um novo dia nascendo. Ao som de Ave Maria, um hino em honra à mãe de Jesus. Assim como o sol, Deus nasce (e morre) todos os dias. É praticamente Natal nesta cena. Várias culturas tem sua mitologia centrada em deuses solares.

Aurora (na sequência de Fantasia) e Jesus com sua auréola (retratado assim massivamente por grandes mestres da pintura). Cristo como metáfora do sol. Eu não sei vocês, mas eu vejo as colinas como um ventre prestes a… como se diz? Ah, sim, “dar a LUZ”.

Aurora (na sequência de Fantasia) e Jesus com sua auréola (retratado assim massivamente por grandes mestres da pintura). Cristo como metáfora do sol. Eu não sei vocês, mas eu vejo as colinas como um ventre prestes a… como se diz? Ah, sim, “dar a LUZ”.

 

Simbologia/alegorias/metáforas

Chapéu – o chapéu de Yen Sid é azul escuro com lua e estrelas (um universo mental). Um céu noturno. A noite simboliza o oculto, o desconhecido. Sua forma icônica, presente em muitos adereços de cabeça em várias culturas, representa uma “antena” que capta as vibrações direto da Fonte, uma ligação com o céu – uma dimensão dita superior.

O estilo pontudo é marca de grandes magos (alguns não tão grandes assim…)

O estilo pontudo é marca de grandes magos (alguns não tão grandes assim…)

 

Chapéus pontudos em trajes ceremoniais mundo afora: chapéu de ouro da Idade do Bronze. Mitra papal. Peça de cabeça de Osiris. Chapéu da Ilha de Morgninton. Chapéu amarelo tradicional do Dalai Lama.

Chapéus pontudos em trajes ceremoniais mundo afora: chapéu de ouro da Idade do Bronze. Mitra papal. Peça de cabeça de Osiris. Chapéu da Ilha de Morgninton. Chapéu amarelo tradicional do Dalai Lama.

Mas, se feitos do material certo, também podem funcionar como capacetes blindados contra influências externas…

Cena do filme “Sinais” (2002) onde os personagens recorrem ao alumínio para blindar seus cérebros do controle mental de extraterrestres. Salva essa gente, Magneto.

Cena do filme “Sinais” (2002) onde os personagens recorrem ao alumínio para blindar seus cérebros do controle mental de extraterrestres. Salva essa gente, Magneto.

 

Transmutação – Yen Sid se aproxima de uma caveira em cima de sua mesa. Para a maçonaria, a caveira não simboliza a morte nem nada de mal. Ela representa a mente e a igualdade (desprovida de todas as máscaras). Com o semblante marcado pela concentração serena, o Feiticeiro evoca uma forma insubstancial, parecida com uma névoa que sai da caveira. Algo insubstancial saindo da cabeça só pode ser um pensamento. É o espectro da mente de cada um.

 

Yen Sid e Dumbledore extraindo pensamentos

Yen Sid e Dumbledore extraindo pensamentos

Logo depois essa névoa adquire, efemeramente, contornos que não nos são muito familiares mas que ao final do filme fariam todo o sentido. É Chernabog, o demônio manipulador de almas exorcizado pela Fé!

Mal temos tempo para visualizar sua figura e a névoa se transforma novamente, desta vez em uma vistosa borboleta, símbolo de transformação. Fundamentalistas vão dizer que é um símbolo Illuminati e de Nova Era. Como se isso fosse uma coisa ruim. A luz da Ciência é tão poderosa (para o “bem” e para o “mal”) quanto a luz da Fé. E as Eras… bem, elas passam (e não devemos nos esquecer dos ensinamentos de cada uma). A borboleta, por sua metamorfose de lagarta (que se arrasta) em inseto alado, é um belo símbolo de evolução.

Yen Sid transformando a mente humana, naturalmente dotada de instintos, em algo mais evoluído e sublime através de sua própria força de vontade.

Yen Sid transformando a mente humana, naturalmente dotada de instintos, em algo mais evoluído e sublime através de sua própria força de vontade.

Então temos nossos pensamentos, com muita capacidade para o mal mas, por conhecimento e esforço próprios, sendo transformado em algo bom e belo. A alquimia máxima é transformar o próprio ser, um eterno aprendiz.

Façamos a comparação desta cena com a de Chernabog sendo enxotado pelos sinos: o Mal, aqui representado pelo arquétipo do demônio, não suporta a luz (simbolizando o Bem) e se retira. Mas sabemos que, ao findar o dia, a luz dá lugar a escuridão. Portanto, é provável que Chernabog volte ciclicamente. Afinal, ele também faz parte do mundo. Já Yen Sid mostra que o Mal está em nossas próprias mentes e que é possível transformá-lo no Bem. São duas formas de lidar com o Mal e, digno de nota, Disney não apontou qual era a “certa”. Tanto a [Fé + esforço] quanto a [Magia/Ciência + esforço] são fórmulas capazes de controlar o Mal.

Disney apenas apresenta os que estão no caminho da Espiritualidade (as pessoas na procissão dos sinos) e as que buscam outros caminhos, como Yen Sid, como personagens com um objetivo em comum: aperfeiçoamento e evolução para controlar seus impulsos menos nobres, regidos por instintos de sobrevivência. Um mundo mais fraterno.

 

Sonho – quando Mickey cochila e sonha que está controlando as ondas e marés do oceano, acorda encharcado com a enxurrada que a vassoura mágica está provocando. É o conceito hermético de que “assim acima como abaixo”. As diversas realidades têm ligação. E o sonho é uma projeção astral da qual, frustrantemente, não conseguimos lembrar na maioria das noites. Quando o aprendiz acorda de sua projeção de glória e poder, percebe que a realidade, embora parecida com o sonho, requer muito mais dele do que pensava. Não adianta apenas se apoderar do conhecimento do Feiticeiro (seu chapéu). É preciso um algo mais. Há que decidir muito bem o que fazer com ele: “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.

 

Sinos espantando demônios – a crença de que a luz espanta criaturas do mal nós já sabemos de onde veio, não é mesmo? Mas e os sinos? Segundo os religiosos, os sinos são o som da igreja e por isso os seres nefastos os temem, assim como crucifixos e água benta. Mas e antes de existirem igrejas? O simbolismo dos sinos é muito mais ancestral, visto que, em várias culturas da antiguidade, o som produzido por metais se chocando era creditado com poderes metafísicos capazes de repelir espíritos malignos.

Isso tem tanta força que é usado rotineiramente como referência em obras do universo cinematográfico, literário e HQ. Quem não lembra de quando o Homem Aranha usou as barras metálicas para enfraquecer o Venom com ondas sônicas?

“Pare! Você é péssimo de percussão.”

“Pare! Você é péssimo de percussão.”


Distorções

Em O Aprendiz de Feiticeiro do grego Samósata, o Feiticeiro não fica zangado com os erros de seu aprendiz como o de Disney aparenta ficar, já que se trata de uma obra de escárnio contra os que se apegam a qualquer tipo de crença. Yen Sid, mesmo entendendo a ansiedade de seu aprendiz em dominar a magia (e um bom mestre sabe que o erro é bem vindo), deve ostentar um semblante severo para, didaticamente, fixar a lição de moral aprendida: você não deve lidar levianamente com o que não entende e domina.

 

Moral

Mais uma vez, Disney – Rosacruz e Demolay – ilustra a máxima maçom da alquimia gradual da mente através de esforço próprio para o bem maior. Com elementos mitológicos e científicos misturados, apresenta à criança a noção de que existem forças regendo a natureza (o nome que você vai ensinar seu filho a chamá-las, cabe a você).

E, sobretudo, Fantasia é uma obra feita com o propósito de tornar a música visível.

O que os fundamentalistas acham que as crianças vão aprender: paganismo, luxúria, lavagem cerebral, rituais de magia negra e adoração ao demônio.

O que as crianças realmente assimilam: ter cuidado ao lidar com coisas que você não domina, aceitando a guia dos mais velhos ou autoridades. Meninas precisam chamar atenção com sua aparência (suspiro) e meninos não. O mal existe mas é sempre derrotado pelo bem. A natureza é linda e funciona em ciclos de destruição e renascimento. Se você não for bonzinho, Chernabog vai vir puxar seu pé de noite (porque de dia você está salvo!). Impressionante como certos filmes têm duas mensagens: uma didática, para crianças, e outra para quando você está preparado para entender.

 

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