Este post faz parte da série Arquétipos, possuindo a mesma introdução antes da análise do filme.

Em muitos lugares, o primeiro contato de uma criança com conceitos sobrenaturais se dá nas práticas culturais da própria sociedade a qual pertence. No mundo ocidental urbano, isso se torna cada vez mais raro e a introdução ao universo “mágico” acontece, em grande parte, através de livros e filmes voltados ao público infantil.

As obras cinematográficas, especialmente dos grandes estúdios como Disney, Pixar e Dreamworks, terminam por pre-moldar a primeira visão que se tem sobre espiritualidade, independente da religião que os pais porventura queiram ensinar a criança.

Há quem veja esse fato de uma maneira extremamente negativa. Vocês provavelmente já os viram por aí, berrando aos quatro ventos que certos desenhos são coisas do capiroto para desviar os inocentes do bom caminho. Exortam todos os pais “conscientes” a não deixar esses “lixos da Nova Era” entrar nos domínios do seu lar (sim, estou falando com você que rasgou o livro do Harry Potter do seu sobrinho).

Mas será assim tão perigoso sujeitar uma criança a arquétipos ancestrais presentes no mundo, quer você queira quer não, há milhares de anos antes da sua existência?

Será mesmo saudável privar alguém da sabedoria e tolerância que a diversidade de crenças pode ensinar?

Serão analisadas apenas as animações que apresentem algum aspecto mágico em seu enredo, como arquétipos da bruxa, xamã, mago etc.

CUIDADO com os spoilers! A partir daqui está por sua conta e risco.

Vejamos se os grandes clássicos são assim tão diabólicos…

 

 

Pinóquio (1940)

 

Arquétipos presentes

Depois do estrondoso sucesso de Branca de Neve, Disney segue apostando na reinterpretação de contos consagrados. Desta vez, adapta a obra do jornalista e escritor italiano Carlo Lorenzini (mais conhecido por seu pseudônimo – Carlo Collodi). Le avventure di Pinocchio era publicado em capítulos semanais (36 ao todo) no primeiro jornal italiano para crianças, entre 1881 e 1882. No ano seguinte, com algumas modificações de seu editor, Collodi compilou e deu continuidade à série publicando seu livro.

Geppeto, um humilde carpinteiro, encarna o arquétipo do Criador e, na versão de Disney, esculpe e batiza um boneco em madeira de pinho cujo resultado o agrada tanto que faz um pedido a uma estrela: que Pinóquio se torne um menino de verdade. E porque teve uma vida inteira de bondade, é atendido.

 

"Primeira estrela que eu vejo, faça aquilo que desejo."

“Primeira estrela que eu vejo, faça aquilo que desejo.”

 

O Criador é utilizado com frequência em contos porque é o arquétipo que equipara personagens humanos a deuses, capazes de “dar a vida” a algo ou alguém. Por exemplo, na mitologia grega, o escultor Pigmalião esculpe uma mulher perfeita e se apaixona por ela, orando a Afrodite para que lhe conceda a vida. Comovida, a deusa atende o pedido, dando o nome de Galatea (da cor do leite) à ex-estátua. Assim também Michelangelo, quando terminou de esculpir a estátua de Moisés, admirado com a perfeição da obra, teria bradado “Parla!” (Fala!) exortando sua criação a manifestar vida.

 

Geppeto trabalhando em sua obra

Geppeto trabalhando em sua obra

 

Ao escolher o nome com o qual irá batizar sua criação, Geppeto pede opiniões e tanto o gato Fígaro quanto a peixinha Cléo deixam claro não terem gostado do nome “Pinocchio”. Há controvérsias quanto ao seu significado. Numa tradução literal, Pino significa “pinho” e occhio corresponde a “olho” em italiano. Ao pé da letra temos então “Olho de Pinho” ou “Semente de Pinho”, segundo alguns. Geppeto pergunta ao boneco se gostou do nome, sacudindo ele mesmo o cordão que segura a cabeça da marionete num movimento afirmativo. Este ato enfatiza a prévia falta de livre arbítrio da criatura.

Em se tratando de Magia, quando ficamos sabendo o nome de algo ou alguém, ganhamos certo poder sobre esta entidade (veja o caso de Rumpelstiltskin, por exemplo).

Já quando se dá um nome a algo ou alguém, adquire-se poder OU responsabilidade sobre ela. Um direito paterno/materno sobre o ser nomeado. O que começa a introduzir o arquétipo do Pai, já que Geppeto se preocupa e passa a cuidar de Pinóquio.

 

Geppeto entrega ao filho a maçã, símbolo do conhecimento, e o manda para a escola.

Geppeto entrega ao filho a maçã, símbolo do conhecimento, e o manda para a escola.

 

Mas o sopro da vida foi dado pela Fada Azul (a estrela para a qual o artesão dirige sua súplica).

Então porque o Criador é Geppeto e não a Fada? Porque Geppeto fabrica Pinóquio por vontade própria, um anseio seu. A Fada concede a vida por meio de um pedido específico de Geppeto. O anseio não é dela. Ela é o meio.

 

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“Boneco feito de pinho, acorde! O dom da vida é seu”

 

O Criador neste caso é consciente (molda o corpo de Pinóquio e o nomeia de acordo com seus propósitos) mas limitado (não consegue conferir a sua criação uma dimensão além da física) e pede a intervenção da Força da Vida, a Fagulha Primordial do Cosmo, na figura da Fada, para que insufle um pouco de sua essência no boneco. Assim, o Criador tem o poder de manipular a Vida (até certo ponto).

Por uma necessidade quase automática de representar a dualidade, nos vemos tentados a considerar a Fada Azul como o arquétipo da Mãe, uma vez que Geppeto é o Pai. No entanto, ela é apenas a força motriz do Universo, sem propósitos carnais. A vida de Pinóquio é consequência sua, não um desejo.

Mas voltemos à Fada, o arquétipo mágico apresentado na história. Segundo a mitologia européia original, as fadas estão entre os seres elementais (espíritos dos quatro elementos), pertencendo ao elemento “Ar”, assim como os gnomos pertencem à terra, as sereias à água e as salamandras ao fogo. Protegem a Natureza e podem ser benéficas ou nocivas ao homem.

Traçar os elementos que deram origem à construção do mito das fadas é algo bem impreciso, uma vez que elas possuem nomes e características diferentes nos mais diversos países. Cada um deu sua contribuição cultural para, no decorrer dos séculos, modificar o conceito no imaginário humano. Por isso dá-se a variedade de tipos: fadas grandes, pequenas, com ou sem asas, fêmeas e machos, bonitas e feias, com ou sem uma varinha de condão, que vivem em bandos ou solitárias, que possuem grandes ou simplórios poderes. Algumas hipóteses para a origem das fadas:

  • Deuses pagãos da antiga Europa ocidental foram reduzidos à condição de fadas (seres intermediários entre deuses e homens) pelo Cristianismo para evitar a competição com o Deus único. Isso quando não as associam diretamente a demônios.
  • Alguns antropólogos teorizam que raças humanóides ancestrais em vias de extinção, avistados em raríssimas ocasiões no passado, podem ter sido confundidas com criaturas sobrenaturais. Por exemplo o Homo floresiensis (descoberto na ilha de Flores – Indonésia), que tinha aproximadamente 1m de altura, crânio bem menor que o nosso e andava ereto. Curiosamente, na Indonésia e em outras regiões do globo, utiliza-se a expressão “o povo pequeno” para se referir a fadas.

Corrobora para esta hipótese a visão que nos traz Mirella Faur em Mistérios Nórdicos, onde explica a divisão da casta dos elfos em claros (Ljossalfar) e escuros (Svartalfar):

Os elfos claros apresentavam feições suaves, formas graciosas e cores claras. Apreciavam a música e a dança e apareciam, para os seres humanos que consideravam merecedores de seu auxílio, como lampejos de luz ou raios coloridos que ativavam a inspiração e a criatividade.

Os elfos escuros, que se originaram das larvas surgidas da decomposição do cadáver do gigante Ymir, tinham aparência grotesca, pele escura, feições grosseiras, barbas longas e estatura baixa. Por temerem o contato com a luz solar (queimava-os ou petrificava-os), se refugiavam sob a terra, em cavernas e frestas em rochedos. Mostram mau humor, malícia e acessos temperamentais.

” O enaltecimento das qualidades dos aristocratas
altos e de pele branca (descendentes dos indo-europeus)
e a opressão dos nativos
sami (baixos e de pele escura),
obrigados a trabalhar como escravos.
Os arianos chamavam todos os nativos (
sami, inuits e
esquimós) de
skraelings, ou “selvagens deformados”.”

Do ponto de vista mitológico, os anões derivam dos elfos escuros, conhecidos por habitar as montanhas e profundezas da terra, de onde extraem preciosos minérios. Como Tolkien tão bem ilustrou em sua obra, anões dão excessiva importância às coisas materiais, enquanto os elfos (claros) estão mais preocupados com o conhecimento e a elevação do espírito (na visão do autor, inclusive, os anões não são da turma do mal. Esse papel é de elfos claros torturados até virarem Orcs. Na mais recente releitura da Bela Adormecida da Disney, Malévola também é uma fada torturada, de certa forma).

 

Galadriel (elfo claro), Gimli (elfo escuro) e Orc (elfo claro torturado)

Galadriel (elfo claro), Gimli (elfo escuro) e Orc (elfo claro torturado)

 

Do ponto de vista antropológico, a origem dos anões germânicos pode estar ligada a um povo subjugado pelos nórdicos num passado distante. Os remanescentes deste povo teriam se refugiado para as montanhas e cavernas e, com boas razões, evitavam serem vistos. Com o passar do tempo, contribuíram com a construção da mitologia local.

Atualmente, a Wicca é a vertente que favorece um resgate mais próximo do conceito original de fadas: seres imateriais, energéticos ou de matéria muito sutil, ligados aos elementos naturais, capazes de transitar entre dimensões, incluindo a nossa. Espíritos/divindades menores dos fenômenos naturais. No caso da Fada Azul de Pinóquio, a representação de uma estrela (Sírius).

A Fada Azul é uma sílfide (elemental do ar) que foi extremamente antropomorfizada e romantizada. Vejamos as camadas de maquiagem:

Tudo começa quando o povo mítico irlandês Tuatha De Danann são transformadas em fadas medievais conterrâneas do Rei Arthur (ele próprio considerado descendente do povo mítico em algumas versões), surgindo personagens como Morgan le fay (a Fada Morgana) em As Brumas de Avalon (1979), embora seu arquétipo esteja mais para Druidesa.

Com a expansão do gênero de Fantasia na literatura, Shakespeare (Sonho de Uma Noite de Verão) e outros autores fizeram uma verdadeira salada, misturando seres de várias mitologias diferentes, cada um tentando ser o mais “original” de todos. Assim, Titania e Oberon, rainha e rei das fadas na visão shakespeariana, conservaram a estatura típica de elfos, enquanto que seus súditos diminuíram em tamanho. A índole das fadas literárias também oscilou bastante.

Por volta de XVIII, na Europa, livros escritos especificamente para o público infantil começaram a aparecer e, com isso, todo um panteão de criaturas (originais ou repaginadas) foram adaptados para atender à demanda desse novo gênero. Não é difícil adivinhar que a literatura infantil da época buscava um aspecto essencialmente moralista e, assim, fadas se tornaram guias, madrinhas e protetoras, sempre direcionando o herói ao bom caminho. As fadas, assim como as bruxas, por terem poderes mágicos, permitiam reviravoltas impossíveis na trama, proporcionando as histórias mais incríveis.

Atualmente, no imaginário infantil, a fada se divide em duas categorias: fada madrinha clássica  – concede desejos com sua varinha de condão (A Fada Azul) e as fadas pixies – diminutas e travessas, com alguns poderes (Fada Sininho, fenômeno de marketing originada em Peter Pan). A Disney já gosta de uma fada, viu?

Pinóquio é a Criatura. Geralmente um arquétipo que causa muita empatia, pois nos identificamos com sua busca por uma razão de existir e em seus questionamentos ao Criador.

Um dos arquétipos de Criatura mais famosos e revisitados à exaustão é o de Frankeinstein, da inglesa Mary Shelley, que o escreveu com então 18 anos, publicado em 1818. Assim como Collodi, Shelley descreve um Criador limitado, que precisa pedir ou manipular a Natureza para dar vida a sua criação: no livro, o dr Frankeinstein usa uma descarga elétrica (raio – fenômeno natural) para animar o monstro.

Uma releitura recente de Pinóquio é o filme O Homem Bicentenário, de Chris Columbus (1999), inspirado em um conto de Isaac Asimov e Robert Silverberg em The Bicentennial Man and Other Stories. Nele, Andrew (brincadeira com a palavra Andróide) é um robô especial que busca seu reconhecimento como humano.

O mesmo acontece em A.I. – Inteligência Artificial (Steven Spielberg, 2001) baseado em um conto de Brian Aldiss chamado Supertoys Last All Summer Long.  O robô aqui é David, programado para amar seus pais humanos incondicionalmente por toda a sua existência. Bastante cômodo para os humanos, mas nem tanto para David, que parte em busca de sua essência espiritual representada pelo reencontro com sua mãe (vínculo Criador/Criatura).

Nas 4 obras (Pinóquio, Frankeinstein, O Homem Bicentenário e A.I.) temos as etapas:

 

1. Corpo inanimado >> 2. corpo vivo >> 3. condição humana

 

A etapa 1 é garantida pelo Criador humano: o corpo físico da Criatura, quer sejam marionetes, robôs ou partes costuradas de cadáveres.

A etapa 2 é o sopro da vida, representado por forças naturais e sobrenaturais.

Alcançar a etapa 3 depende única e exclusivamente da Criatura e é este o conflito que empurra o arquétipo em sua jornada.

 

Eu só queria ser gente de verdade...

Eu só queria ser gente de verdade…

 

O Grilo Falante, além de ser o arquétipo do Conselheiro, simboliza a consciência de Pinóquio (nomeado como tal pela Fada Azul).Talvez a escolha deste animal tenha se dado porque, geralmente, ouvimos os grilos mas não os vemos – como a consciência. Neste caso, trata-se de uma consciência moral, entre o “certo” e o “errado”. Mas o Grilo também pode ser visto como outra diminuta voz que poucos ouvem – a intuição. A intuição é uma forma de percepção que independe dos nossos sentidos, por isso temos dificuldades em confiar nela, uma vez que determinada sensação parece “vir do nada” e não ter nenhuma causa aparente. Nossa lógica então a descarta, e pensamos: “deve ser só impressão.”

Esquecemos, porém, que a intuição vem de uma área do cérebro pouco ligada à lógica. Uma área chamada, apropriadamente de “cérebro antigo”, o córtex límbico, onde estão armazenados milhares de anos de vivências de antepassados (ou encarnações, ou vidas paralelas em outras dimensões, como queira).

O fato é que Pinóquio agora é um ser dotado de vida e de consciência e, através do livre arbítrio, fará com elas o que melhor lhe parecer.

 

"Sempre que precisar de mim, assobie."

“Sempre que precisar de mim, assobie.”

 

Tudo muito bonito, mas o que seria da evolução sem os obstáculos, não é mesmo? Entram em cena João Honesto e Gideão, arquétipos do Trapaceiro, prontos a se aproveitar da inocência de Pinóquio. Sendo uma raposa e um gato, respectivamente, ambos simbolizam animais astutos, inteligentes, silenciosos, que têm estratégias elaboradas tanto para caçar quanto para enganar possíveis predadores. Por causa disso, em muitas culturas, estes animais recebem uma fama negativa um tanto injusta.

Nas fábulas e contos da mamãe gansa (histórias da carochinha), o arquétipo do Trapaceiro estava sempre muito bem definido no personagem. As histórias deveriam adestrar moralmente as crianças e, portanto, ter papéis claros entre o “bem” e o “mal”. Sem dúvidas, isso alimentou estereótipos preconceituosos por incontáveis gerações e é curioso como agora as releituras modernas dos contos buscam desconstruir esses estereótipos através da sobreposição de arquétipos num mesmo personagem (onde o Príncipe é também o Vilão), fazendo a criança desenvolver seu senso crítico ao demorar mais a julgar alguém. Afinal, nem tudo é o que parece e as pessoas têm várias facetas diferentes. Bom, mas esse não é o caso desses dois:

 

João Honesto e Gideão espreitam sua presa

João Honesto e Gideão espreitam sua presa

 

Os trapaceiros convencem Pinóquio, apesar dos apelos do Grilo Falante, a entrar para o mundo do espetáculo na companhia de teatro de bonecos de Stromboli – arquétipo do Manipulador muito bem representado por um titereiro interessado somente em lucros, que usa as marionetes para conseguir seu objetivo, revelando o sombrio futuro das mesmas ao ficarem velhas e não servirem mais a ele: lenha para o fogo. Não é a toa que Stromboli é também o nome de um vulcão na Itália. Assim, o Manipulador consome as almas que caem em suas mãos.

 

Triste fim dos manipulados

Triste fim dos manipulados

 

Nem bem o pobre do boneco se livra de Stromboli, encontra com o arquétipo do Escravizador, na figura de um personagem que atende simplesmente por “O Cocheiro” e leva uma penca de meninos em sua carruagem para a Ilha dos Prazeres, onde são transformados em burros para trabalharem em minas.

 

Simpático...

Simpático…

 

Em meio aos meninos está um guri chamado Espoleta que convence Pinóquio a fazer quase tudo, desde o consumo de drogas até a depredação de obras de arte, graças ao seu carisma. Uma “má companhia” que representa o Desencaminhador. Não é, necessariamente, um arquétipo mau. Espoleta não prejudica Pinóquio de propósito. Apenas quer um cúmplice em suas travessuras e, exemplarmente, se dá muito mal no final.

 

Pinóquio mostra a Espoleta a “passagem” que João Honesto deu a ele para a Ilha dos Prazeres. O Às de Espadas, em algumas lendas populares do folclore, é conhecido como a carta da morte. Um presságio curioso.

Pinóquio mostra a Espoleta a “passagem” que João Honesto deu a ele para a Ilha dos Prazeres. O Às de Espadas, em algumas lendas populares do folclore, é conhecido como a carta da morte. Um presságio curioso.


Simbologia/alegorias/metáforas

 

Nariz crescendo – não, isso não dá pra explicar, não. A principal alegoria da obra não tem origem definida. Há quem diga que simplesmente Collodi era fascinado com o nariz humano, mas nada foi provado. O fato é que, segundo uma equipe de psiquiatras da Universidade de Illinois, E.U.A, certos tecidos dentro do nariz se inflam quando mentimos. Esse inchaço provoca coceira. Boa sorte com sua rinite quando for dar um depoimento.

Mas entender todo o esmero para demonstrar como o personagem sofre quando se desvia do caminho virtuoso fica mais fácil quando se descobre que Collodi era um maçom ativo. Agora tudo faz sentido e podemos entender melhor as seguintes passagens:

Várias tentações surgem no caminho do iniciado. A companhia de shows de Stromboli é uma armadilha para o ego – a tentação da glória e da fama. A ilusão é reforçada porque, quando as cortinas se fecham, longe dos olhos do público, Pinóquio é enjaulado.

Já a Ilha dos Prazeres simboliza a vida mundana, a busca pelos prazeres efêmeros e as perigosas consequências que isso acarreta. Envolve preguiça, selvageria e gula. Nas palavras de Espoleta: “Muita comida, muita bebida. Você pode quebrar tudo por lá e ninguém diz nada. E tudo de graça!” Parece bem divertido, no entanto a ilha guarda uma maldição peculiar: quem permanece nela muito tempo, aos poucos vai se transformando em um burro que, mais tarde, será submetido a trabalhos forçados. É o retrato da política do pão e circo. O cuidado que se tem para negar o acesso à educação para as massas, matendo-as dóceis, controladas.

 

“Tá olhando o que?”

“Tá olhando o que?”

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“Ok, parei com essas drogas!”

“Ok, parei com essas drogas!”

 

Após escapar desta prova no último segundo com apenas um rabo e um par de orelhas, Pinóquio ainda se joga numa jangada pra salvar o pai que foi engolido por uma baleia (acontece nas melhores famílias). Claro que o boneco foi engolido também, jangada e tudo, pela fera gigante que atende por Monstro.

Onde foi que eu já vi isso antes? Ah, sim, Jonas também foi engolido por um “grande peixe” (Jonas, 1:17) ao tentar escapar da tarefa que Deus o havia incumbido e só foi cuspido de volta ao se arrepender e mudar de opinião, três dias depois. O mito de Jonas é encontrado tanto na tradição Cristã como na Judaica e na do Islã.

 

Incompreendidas desde tempos bíblicos

Incompreendidas desde tempos bíblicos

 

É o que os maçons chamam de “morte mística”, onde o iniciado abdica simbolicamente da própria vida, dedicando sua existência em se aperfeiçoar espiritualmente e em ajudar o próximo. Em A.I. – Inteligência Artificial, a baleia é substituída por um pequeno submarino onde David, em completa escuridão, espera eras até ser resgatado.

Pinóquio e Geppeto são finalmente cuspidos, mas o boneco, tentando proteger o pai, se afoga. Desta vez não é uma morte simbólica, mas real. Velando o corpo do filho, Geppeto não vê que a Fada Azul não só ressucita Pinóquio como o transforma, finalmente, num menino de verdade. A Criatura alcançou, através da bravura, sinceridade e generosidade, a elevação espiritual que lhe confere o status de “Homem de Verdade” – a essência humana.

 

Me belisca que eu não acredito

Me belisca que eu não acredito

 

Ao final, a Fada Azul condecora o Grilo Falante com um distintivo de ouro. Na alquimia, a transmutação máxima da matéria ordinária, o pesado fardo da existência física (chumbo) em algo belo, raro e precioso: uma consciência de ouro.

Ao final, a Fada Azul condecora o Grilo Falante com um distintivo de ouro. Na alquimia, a transmutação máxima da matéria ordinária, o pesado fardo da existência física (chumbo) em algo belo, raro e precioso: uma consciência de ouro.

 

Distorções

 

O Pinóquio de Collodi era mimado e birrento e, aos poucos, aprende a se comportar. O de Disney é tão inocente que chega dá pena…

 

"Veja, que bonito!"

“Veja, que bonito!”

 

Na história original, um carpinteiro acha um toco de madeira falante e o dá a seu amigo Geppeto, que então resolve que o melhor a se fazer com tal incrível artefato é uma marionete. Diante disso, não podemos evitar imaginar de onde veio esse toco e como era a existência de Pinóquio em sua forma de árvore. Ao contrário de Galatea e Moisés, estátuas feitas de pedra, Pinóquio, mesmo antes de ganhar a forma de um boneco, já possuia vida como uma planta! Podemos concluir então que quem deu a vida a Pinóquio foi a própria Natureza.

Porque então Disney sentiu a necessidade de transmutar a Força da Vida para o arquétipo da Fada ao invés da sua forma natural? Especulemos: porque Pinóquio precisava de uma figura materna palpável para seu público? Isso buscava satisfazer mais as crianças ou aos seus pais? Há um detalhe que me faz desconfiar mais da segunda opção: na obra de Collodi, o nome da fada era La Fata dai Capelli Turchini, “A Fada de Cabelo Turquesa”. Porque diabos Disney resolveu substituir as lindas madeixas azuis por uma comum cabeleira loira é um mistério além do alcance. Além disso, a fada era uma criança que depois volta a encontrar Pinóquio adulta. Na versão de Walt, ela já surge madura e carinhosamente materna. Fígaro e Cléo também foram introduzidos com o mesmo propósito de simbolizar uma família para Pinóquio, além de dar toques extras de humor.

 

A Fada Azul antes da tintura

A Fada Azul antes da tintura

 

O Grilo Falante trabalhava para Stromboli (!) e entrou na oficina de Geppeto justamente para espionar as marionetes que valeriam a pena serem roubadas. Mas acaba se afeiçoando ao boneco e tenta aconselhá-lo. Pinóquio acidentalmente mata o grilo esmagado e então seu fantasma continua lhe dando conselhos ao longo da história.

 

Moral

 

Collodi teve o claro intuito de ilustrar a máxima maçom de elevar o espírito através do conhecimento e auto-disciplina por conta própria e isso foi mantido por Walt Disney, que apenas adaptou a alegoria para torná-la mais compatível com a cultura americana.

O que os fundamentalistas acham que as crianças vão aprender: maçonaria e culto a falsos deuses.

O que as crianças realmente assimilam: mentir não vale a pena. Escute sua consciência. Há uma recompensa por ser bom. Obedeça seus pais. Estude. Não confie em estranhos (didático, não?).

 

 

* As imagens são frames dos filmes originais.

 

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