Você pode sentir o cheiro da pasta de dente no hálito de uma pessoa, mas não pode, como um cão, detectar se esta pessoa está doente.

Você pode sentir o gosto da saliva de uma pessoa, mas não pode, como uma girafa, determinar pelo paladar se a urina desta pessoa contém hormônios que indicam período fértil.

Você pode sentir quando vai chover pela observação do tempo. Mas dificilmente conseguirá prever um terremoto ou furacão como a maioria dos animais.

Somos uma espécie quase que energeticamente cega. A energia mais perceptível para nós é a da luz. Tudo o que escapa aos nossos sentidos ou razão costuma ser combatido. Na melhor das hipóteses, ignorado. No entanto, como nos mostram os animais, há cores no espectro que não conseguimos sequer imaginar. O que impediria então a existência de energias sutis o suficiente para ainda não possuir tecnologia compatível que a detecte?

Quando muito pequenos, tínhamos nosso brinquedo favorito. Aquele especial, que levávamos até para o banheiro e que não conseguíamos dormir tranquilos sem ele. O subconsciente de uma criança, por ser uma “taça menos cheia” que o do adulto, é mais poderoso. Além de lágrimas, imprimíamos em nossos ursinhos e bonecos toda a energia dos nossos pensamentos.

Depois crescemos, nossas mentes ficam cheias demais, e eles ficam trancados em algum armário esquecido. Porque você doou todos os seus brinquedos. Menos esse. É apenas um objeto que nos traz lembranças, dirão alguns, disfarçando o cisco que sempre entra no olho quando assistem Toy Story 3.

Lembra quando nada podia te atingir? // Tumblr. Reprodução

Lembra quando nada podia te atingir? // Tumblr. Reprodução

E o que dizer de gente que se recusa a morar em casas onde já ocorreram assassinatos, mesmo o negócio sendo uma pechincha? Mas não já limparam todo aquele sangue das escadas? “Hum, não sei…” Você usaria um colar se soubesse que o mesmo foi usado para estrangular alguém? Superstição, dirão os céticos.

E a lista segue, desde fãs que colecionam qualquer item que já foi tocado por seu ídolo (desde chicletes mastigados até bandeides), dos amores desfeitos que conseguiram queimar todas as cartas trocadas mas guardam aquela flor mumificada que um dia já foi tocada pelos lábios do outro e, clássico, as brigas em heranças para saber quem vai ficar com aquela caneta bico de pena quebrada, que não vale meia pataca, que foi do vovô.

Também sempre tem aquele caso na família em que alguém presenciou um porta-retrato com a foto de um ente querido tombando sozinho, do nada. “Foi o vento!”, tentamos nos convencer encarando as janelas bem fechadas. “Era só a tia Naná querendo nos botar medo.”

A tia Naná poderia ser sensitiva a um padrão energético impresso na foto através do sentimento que ela tinha por aquela pessoa. Quando o campo energético dessa pessoa sofre um grande distúrbio, ocorre o mesmo com seu fragmento psicoenergético na foto. Porque a foto e a pessoa partilham, em algum nível, a mesma realidade energética.

Um dos muitos nomes deste padrão energético é “imprint”, que poderia ser traduzido ao pé da letra como “impressionado”, onde a impressão não é uma opinião, mas sim uma “marca”.

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“Sua mãe morreu para salvar você. Se existe algo que Voldemort não consegue compreender é o amor. Ele não entende que um amor forte como o de sua mãe por você deixa uma marca própria.” Dumbledore explica a Harry como a Magia Antiga o blindou quando bebê. // Tumblr. Reprodução

E não, a tentativa de romancear o termo para justificar amor a primeira vista em Crepúsculo não tem nada a ver com o conceito tratado aqui.

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“De repente, não é mais a gravidade te segurando no planeta. É ela. Nada mais importa. Você faria qualquer coisa; seria qualquer coisa por ela,” Deixa eu te dar um spoiler: relacionamentos reais não começam assim. // Tumblr. Reprodução.

No livro, como Jacob Black possui um lado animal (lobo) a autora aproveitou um fenômeno natural para servir como alegoria. No imprint animal, a programação genética de alguns  organismos, por exemplo um pato, o faz seguir a primeira coisa que ele vê assim que sai do ovo. Se esta coisa for você, o patinho lhe seguirá, obstinadamente, por qualquer lugar que você vá. Depois de crescido, este comportamento desaparece. A estratégia funciona porque, num mundo de predadores, é uma boa ideia seguir sua mãe assim que você abre os olhos. E, sendo a fêmea a incubar os ovos, geralmente é ela a primeira coisa que o patinho vê.

 

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“Espera, mãe!” // www.helpfulgardener.com

Um mesmo objeto pode ter vários imprints durante sua existência. Assim como podemos ter sensações boas ou ruins acerca de um objeto carregado com energia sutil, o mesmo vale para lugares e pessoas.

E, valendo para pessoas, também vale para cada uma de nossas células. Elas atuam em conjunto para formar seu organismo, é verdade, mas podem ter vidas muito próprias também. Isso porque suas células são descendentes de organismos unicelulares que, ao longo da evolução, passaram a se associar a outras, vivendo em comunidades cada vez mais complexas em nome da sobrevivência. Aprenderam a cooperar para manter vivo todo o mundo delas: você.

O corpo humano nada mais é do que uma comunidade de cerca de cinqüenta bilhões de células. A maioria delas, nem são suas. São bactérias benéficas, essenciais para a saúde. Seguindo a analogia, podem ser consideradas como “estrangeiras” que fixaram colônias estáveis e engajadas. Acredite, expulsá-las por não serem nativas não seria exatamente um ato de patriotismo.

O mesmo pode ser observado na hipótese de Gaya, onde a Terra é um ser vivo com consciência própria e nós somos suas células, ainda aprendendo a conviver. Esse raciocínio pode ser continuado em ambas as direções: Macrocosmo (planetas são as células do organismo Via Láctea, a Via Láctea é uma célula do organismo Universo etc) e Microcosmo (átomos são “células das células” etc). A Vida é fractal.

Atualmente temos muito mais percepção individual do que coletiva. Mal entendemos nosso subconsciente, que dirá o supraconsciente. Seres humanos se tornaram complexos e diversos demais para cooperar facilmente. Mas dizer que isto está além da nossa capacidade é insultar nosso espírito.

Apesar de toda a programação genética para funcionar perfeitamente em conjunto, o refinamento perceptivo individual das células, assim como o livre arbítrio humano,  permaneceu. As células também se rebelam contra sua sociedade (organismo) de vez em quando: é quando surgem as doenças auto-imunes e demais desequilíbrios do tipo.

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Um belo dia, aquela célula branca T achou que determinada molécula era perigosa para o corpo e resolveu lutar por conta própria. // Wikipedia File

 

O mecanismo molecular que faz as Células T reconhecerem antígenos e ignorar células saudáveis permanece controverso para a Ciência. Pode-se dizer que elas tem sim uma “consciência”, apesar de diferente da nossa. Deve ser uma consciência parecida com a vida intra-uterina, onde emoções são muito mais perceptíveis do que fatores externos propriamente ditos, uma vez que não são os sentidos, mas a vibração energética o veículo para a percepção do ambiente.

Em 1985, o dr Bruce Lipton fez uma descoberta que obrigou os cientistas da época a  rever seus paradigmas. Até então, se pensava que o “cérebro” da célula era o seu núcleo, porque afinal, era onde se encontrava o DNA. Mas, ao extirpar o núcleo de uma cultura de células, Lipton observou que estas continuavam suas vidas e funções normalmente. Depois de um tempo, não conseguindo se reproduzir, morriam.

O núcleo da célula é na verdade o seu centro de reprodução. A informação do ambiente, quer seja de origem química ou energética, é transferida para a célula através da membrana celular. Esta interpreta e envia os sinais aos genes, para que se adaptem da melhor forma possível para o que vão enfrentar: eis um imprinting celular.

Como nossas emoções e pensamentos são padrões energéticos passíveis de interpretação celular, não é exagero dizer que nosso inconsciente controla boa parte de nossa biologia. Tanto é que uma das disciplinas em Ciências da Saúde é a Psiconeuroimunologia – a mente (psico) controla o cérebro (neuro) que influencia nossas defesas (imunologia). Por isso o efeito placebo existe e não deveria ser tão desprezado pela ciência formal.

A Biologia da Crença, de Bruce Lipton, é um livro que costuma fazer as pazes entre céticos e místicos justamente por combinar tão naturalmente as duas áreas. Voltarei a abordá-lo em outros assuntos de forma mais aprofundada.

A energia de um acontecimento, uma emoção, um pensamento podem imprimir informações nas realidades de objetos e seres vivos. Isso acontece quer você perceba ou não. Pouco a pouco, a invencibilidade da Genética passa a ser a mutabilidade da Epigenética, que nos devolve parte de nossa essência humana. A visão neodarwinista, onde, nas palavras do dr Lipton, “dispõe a vida como a eterna batalha entre robôs bioquímicos” começa a ser percebida como uma comunidade celular cooperativa sem o detrimento do livre arbítrio. A sobrevivência não favorece o mais adaptado. A sobrevivência favorece o mais adaptável. E entender como os imprints energéticos do ambiente e de nossas emoções afetam nosso organismo e o de nossos descendentes é um passo importante para a adaptação.

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Ilustração da talentosa Alice de ste Croix, aka Destiny Blue.http://www.cruzine.com

 

Então,

  • da próxima vez que ouvir falar em amuletos e objetos impregnados da essência de alguém, tente não revirar os olhos.
  • não despreze seus instintos. Valorize a intuição.
  • em se tratando de crianças, cuidado com o que suas falas e ações podem imprimir nelas.

 

 

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