Minha cadela passa horas a fio fuçando o quintal atrás de uma plantinha com minúsculas flores amarelas. Quando acha, escolhe as folhas mais tenras e se refestela em sua salada.

É diferente de quando ela está mal da barriga e engole qualquer mato sem mastigar para o novelo de grama forçar o vômito. Essa margaridinha não. Ela come devagar, chego a afirmar que degusta a coisa! E é obstinada em achá-la.

Desde então, tenho procurado saber o que seria esse “mato” que brota espontâneamente de vez em quando. O nome científico é Melampodium divaricatum. Para os íntimos, atende por falsa-calêndula, botão-de-ouro e… botão-de-cachorro. Coincidência?

Eu acho que minha vira-lata sabe o que faz. Segundo pesquisas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista:

Melampodium divaricatum é uma planta muito utilizada no Brasil, principalmente no Nordeste (…) É comumente empregada na medicina popular (Girón et al., 1991). O chá de suas folhas e inflorescências, bem como da planta inteira tem sido empregado popularmente como cicatrizante, diaforético (Rocha Neto & Faria, 2001), diurético e no tratamento da leucorréia (Agra et al., 2007). (…) Trata-se de uma espécie daninha medianamente freqüente em quase todo o país, onde infesta principalmente lavouras anuais, pomares, cafezais e beira de estradas (Lorenzi, 2000).”

 

Eis a dita cuja, brotando embaixo das minhas fuças.

Eis a dita cuja, brotando embaixo das minhas fuças.

 

Além da comprovada atividade antibacteriana, outros trabalhos ainda sugerem propriedades preventivas de cancer. Também, com canferol, quercetina, cumarina e alcalóides pirrolizidínicos na composição de seu óleo essencial, esta humilde erva, tratada como praga agrícola, é um tesouro botânico.

E eu jamais saberia disso se não fosse minha cadela escolhê-la entre uma incrível variedade de matos do quintal. Talvez por ser vira-lata, ela tenha instintos excepcionalmente preservados. Diferente dos cães que não conseguem mais distinguir o que é comestível e devoram meias, fitas cassetes, sabonete… Ela nunca abocanha nada sem antes cheirar, desconfiada.

Animais domésticos não precisam mais lutar para sobreviver, então, instintos pra quê, não é mesmo? Os cães de companhia, particularmente, vivem uma substituição gradual de instintos de sobrevivência (como decidir o que é perigoso ingerir) por instintos de como fortalecer a conexão com seu provedor (buscar cada vez mais contato). Gatos tem ambos os instintos num padrão mais equilibrado, embora sejam criticados por não serem tão submissos como os cães.

Claro, depois de constatar que ela estava se auto medicando, prestei atenção aos seus exames periódicos. Como não acusou nada e todas as taxas estão normais, só posso concluir que a beleza está praticando medicina preventiva! O faro detecta as moléculas de, vamos dizer, canferol e, em alguma região do seu cérebro, um instinto dos mais primitivos lhe diz que aquilo é bom pra ela.

Janine Benyus, em seu livro – Biomimicry, Innovation Inspired by Nature, nos lembra que boa parte do conhecimento etnobotânico (o uso de plantas medicinais de cada cultura) se originou da observação, pelos antigos, do consumo de plantas pelos próprios animais. Particularmente os onívoros como nós: macacos, ursos e, hoje em dia, cachorros.

Não é a toa que muitas espécies de ervas têm em seus nomes populares a pista do “descobridor” de suas propriedades: nó-de-cachorro, erva-de-cão etc.

Os antigos confiavam na sabedoria dos instintos lapidados por milênios de experimentação dos animais e Benyus nos faz outro lembrete: em um mundo onde espécies são extintas antes mesmo de serem descobertas pela ciência, é muito mais produtivo focar verbas e esforços de pesquisa em espécies previamente “selecionadas” como promissoras por nossos amigos peludos.

Doravante, cunho o termo “cinobotânica” – a etnobotânica canina!

 

Dra em Cinobotânica pela Faculdade Atemporal Rafeira do Olfato - F.A.R.O

Dra em Cinobotânica pela Faculdade Atemporal Rafeira do Olfato – F.A.R.O

 

Como não possuímos diploma pela FARO, é difícil para nós identificar a Melampodium divaricatum, haja vista a imensidão de ervas com florzinhas amarelas. O numeroso gênero Melampodium, da mesma família do girassol (Asteraceae), está espalhado pela faixa tropical das três Americas, indo desde o sul dos EUA (Califórnia e Flórida), passando por México, Caribe, Colômbia até o Brasil.

Em países de língua inglesa, são conhecidas como butter daisies (margaridas manteiga) e, na maioria dos países latinos, como botón de oro.

Em alguns lugares, cresce junto com a Aldama dentata, semelhante em formas e cores. Muito mais parecida é a Jaegeria hirta, se diferenciando pelos pelinhos que cobrem o caule.

Fonte: http://www.conabio.gob.mx/malezasdemexico/asteraceae/melampodium-divaricatum/fichas/ficha.htm

Fonte: http://www.conabio.gob.mx/malezasdemexico/asteraceae/melampodium-divaricatum/fichas/ficha.htm

 

Também muio confundida com os gêneros Unxia e Sphagneticola que, como trocentas outras espécies, também atendem por botão-de-ouro.

Unxia camphorata. Fonte:  http://herbario.up.ac.pa/Herbario/resource/data/vasculares/images/Asteraceae/Unxia%20camphorata%20(4).jpg

Unxia camphorata. Fonte: http://herbario.up.ac.pa/Herbario/resource/data/vasculares/images/Asteraceae/Unxia%20camphorata%20(4).jpg

 

Sphagneticola trilobata. Fonte: http://floredeguyane.piwigo.com/picture?/484/category/137-asteraceae

Sphagneticola trilobata. Fonte: http://floredeguyane.piwigo.com/picture?/484/category/137-asteraceae

 

Depois que as pétalas caem, as pequenas sementes da Melampodium divaricatum ficam na base da flor como quitutes numa bandeja. Não precisa coletar para plantar. Se reproduz sozinha com muita facilidade:

 

Alguém aceita uma fatia de torta? Fonte: http://www.backyardnature.net/yucatan/bu-daisy.htm

Alguém aceita uma fatia de torta? Sementes de Melampodium divaricatum mais parecendo brownie de fadas. Fonte: http://www.backyardnature.net/yucatan/bu-daisy.htm

 

Muitos tutores de cães vivem um dilema existencial – confio em meu animal e o deixo comer qualquer erva que queira ou o proíbo para protegê-lo de um eventual envenenamento por  planta tóxica? Depende muito do tutor. Depende muito do cachorro. Para qualquer uma das opções, uma relação de respeito e conhecimento entre os dois é fundamental para verificar se o animal possui ou não bons instintos botânicos.

Se seu animal tem uma dieta natural balanceada e está acostumado com alimentos frescos, provavelmente não vai passar mal se comer uma carne vencida aqui e ali. Seu estômago de carnívoro é ácido o suficiente para se livrar da maioria das bactérias presentes em carne se decompondo. Cães alimentados assim restauraram a flora do trato digestivo para um patamar mais próximo do lobo. Cães alimentados com ração, se não passarem por uma fase de transição bem feita, provavelmente terão desconforto ao comer carne, mesmo fresca, pela primeira vez.

Regra geral, cães e gatos sobrevivem depois de ingerir carne. Quem já não presenciou seu amigão decapitando um lagarto ou ganhou aquele meio ratinho morto depositado carinhosamente aos seus pés?

A coisa é diferente quando se muda o cardápio para o reino vegetal. Plantas são muito mais prováveis de fazer seu cão adoecer (e até mesmo morrer) do que carne. Inocentes uvas, por exemplo, podem parar o funcionamento dos rins de um cachorro.

Como existem animais que passam a vida num jardim cheio de plantas tóxicas sem nunca se interessar por elas e, ao mesmo tempo, há os que vão parar no plantão veterinário porque engoliram detergente… cabe aos tutores analisarem, com cautela, a qual grupo seu bichinho pertence. Pode se aprender muito com eles.

Seu cão ou gato tem interesse insistente por alguma erva?

 

 

 

Share: