Domingo de Páscoa. As crianças se lambuzam de chocolate. Algumas atazanam um pobre coelho de verdade, obeso e neurótico, que alguma tia teve a brilhante ideia de comprar. No meio do santo almoço em família, uma voz consternada sempre se levanta:

“É um absurdo o que o consumismo fez com a Páscoa. Todo mundo só quer saber dos ovos, ninguém lembra do verdadeiro dono da festa… O COELHO NÃO MORREU NA CRUZ PARA PAGAR POR NOSSOS PECADOS!”

As crianças começam a chorar assustadas com os rompantes dos adultos e com a imagem perturbadora do coelhinho crucificado (elas não se espantam com Jesus crucificado porque já se acostumaram a vê-lo pregado na cruz. Na missa, no altarzinho da sala, no pingente da mamãe… para elas é normal que ele esteja ali).

Discurso moralista feito, alguns concordam enfaticamente, desfrutando da empatia que a indignação em comum gera, e o feriado segue igual a todos os anos: com bacalhau, chocolate e, dependendo da sua religião, preces e louvores em ação de graças a Jesus Cristo, por seu sacrifício em nome da humanidade e merecida ressurreição.

A revolta seria legítima se não fosse por um detalhe: JC não é o original dono da festa. Na verdade, são “donas”.

Muito antes do nazareno sonhar em nascer, as antigas religiões matriarcais celebravam a fertilidade da Terra como uma divindade generosa, que os alimentava todo ano, num ciclo de morte (inverno) e renascimento (primavera). Quer melhor definição de Deus do que a própria Vida se sacrificando por eras sem fim, nutrindo-se dela mesma?

Para os Anglo-saxões pagãos, Eostre (ou Ostara para os germânicos) era a Deusa da fertilidade e renascimento. Seu festival celebrava a volta da primavera. Segundo a lenda popular, Eostre (daí supostamente viria a palavra Easter – Páscoa em inglês) encontrou um pássaro ferido no chão durante o inverno. Para salvar sua vida, ela o transformou em lebre. Mas a transformação não foi completa e a lebre manteve a habilidade de pôr ovos. Os anglo-saxões tinham por costume pintar seus anseios e sonhos em ovos para oferecê-los a Eostre. Os ovos eram então enterrados para que a Mãe Terra pudesse conhecer os desejos de suas crianças. Como se trata de uma Deusa lunar, essa alegoria soma-se a outros sincronismos presentes em várias regiões na lenda de que um coelho/lebre habita a lua (o ovo cósmico).

Os egípcios e persas também tinham uma explicação, a lá Eostre e seu pássaro transformado em lebre, para o mito do coelho poedeiro. Só que ao inverso: para eles, um coelho era a reencarnação de uma fênix e, para mostrar de onde vinham, continuavam a pôr ovos.

 

Dawn and Dusk Lady Sleeping Left Side (1899) pelo pintor tcheco de Art Nouveau Alphonse Mucha. A obra tem sido usada por neo-pagãos para ilustrar Eostre/Ostera e seu simbolismo de alvorada trazendo de volta o calor da vida.

Dawn and Dusk Lady Sleeping Left Side (1899) pelo pintor tcheco de Art Nouveau Alphonse Mucha. A obra tem sido usada por neo-pagãos para ilustrar Eostre/Ostera e seu simbolismo de alvorada trazendo de volta o calor da vida.

 

Lebre da lua, na mitologia chinesa, fazendo o elixir da imortalidade para a Deusa lunar Chang'e. Nas versões japonesa e coreana da lenda, a lebre prepara bolo de arroz. Presente também na mitologia asteca. Na imagem, detalhe de bordado em um robe imperial. Fonte: wiki.

Lebre da lua, na mitologia chinesa, fazendo o elixir da imortalidade para a Deusa lunar Chang’e. Nas versões japonesa e coreana da lenda, a lebre prepara bolo de arroz. Presente também na mitologia asteca. Na imagem, detalhe de bordado em um robe imperial. Fonte: wiki.

 

Várias formas de enxergar o coelho, às vezes descrito junto com um pilão, em ângulos diferentes da superfície lunar. A pareidolia é um fenômeno psicológico que nos leva a enxergar motivos familiares em formas aleatórias, como ver rostos em tomadas, por exemplo. Imagem: https://taniamarieartist.wordpress.com/tag/rabbit-in-the-moon/

Várias formas de enxergar o coelho, às vezes descrito junto com um pilão, em ângulos diferentes da superfície lunar. A pareidolia é um fenômeno psicológico que nos leva a enxergar motivos familiares em formas aleatórias, como ver rostos em tomadas, por exemplo. Imagem: https://taniamarieartist.wordpress.com/tag/rabbit-in-the-moon/

Como existe apenas uma fonte escrita que confirma a história de Eostre, muitos historiadores acreditam que se trata de uma releitura recente dos neo-pagãos, como os wicanos. Também não se pode descartar a hipótese dos saxões terem se apropriado das crenças celtas originais, muito mais voltadas à conexão com a Terra e com a fertilidade feminina, e terem feito suas adaptações. O fato é que ovos e lebres sempre foram símbolos de fertilidade entre as crenças primitivas, e não é difícil entender o porque.

Somos mamíferos e, como a maioria deles, associamos nascimento, o parto, a sangue e sacrifício. Voltemos ao Paleolítico, nos primórdios da consciência humana, e tentemos imaginar o primeiro contato consciente com um ovo. Não como um animal que apenas o identifica como uma fonte de alimento, mas como mente inquisitiva: eis aqui uma estranha pedra pintada (ovos brancos não são tão comuns na natureza quanto se pensa) aparentemente sem vida. Se eu tentar quebrá-la, nada aparece a não ser uma gosma amarela comestível. Mas se eu esperar e deixar a pedra se quebrar sozinha… surge uma vida, um animal que não sai de dentro de sua mãe envolto em sangue. É uma semente da qual brota não uma planta, mas um animal. Não parece natural que as incríveis pedras mágicas sejam associadas com fertilidade desde o princípio?

Agora as lebres. Sim porque, na maioria dos mitos originais que podem ser rastreados, são lebres, e não coelhos, retratados como símbolos lunares de fertilidade. A substituição pode ter ocorrido em função de adaptações da mitologia para a fauna local de outros países.

Lebres, ao contrário de coelhos, não fazem tocas subterrâneas, mas sim ninhos na grama. Sim, ninhos. Seus filhotes já nascem peludos, de olhos abertos e ativos. Seus rituais de acasalamento são um dos principais sinais de que a primavera chegou.

Se você acha o coelho prolífico, espere até conhecer detalhes da vida íntima das lebres. Elas frequentemente atingem a superfetação, isto é, mesmo já estando grávidas, se houver uma cópula furtiva que seja, podem engravidar novamente gerando embriões de idades diferentes no mesmo período de gestação. O fenômeno, extremamente raro em humanos, pode ter sido o que levou filósofos da antiguidade, como Plínio e Plutarco, a deduzirem que as lebres eram hermafroditas e que não precisavam de um parceiro para se reproduzir. Por sua vez, essa crença levou a lebre a ser associada, mais tarde, com Maria, uma vez que ambas poderiam engravidar “sem mácula”, sem perder a virgindade. Mas não se engane, bem antes de representar a doçura da mãe de Jesus, a lebre já era contemplada como símbolo de deusas pagãs de fertilidade e renascimento. Talvez por essa “acusação” de apropriação, algumas representações da Virgem Maria passaram a mostra-la com uma lebre sob os pés, simbolizando vitória sobre a luxúria. De animal puro e virginal, a lebre passa a ilustrar a fornicação pecaminosa, de acordo com os objetivos momentâneos da igreja. O que o Cristianismo fez, como várias religiões, foi se apropriar e adaptar  conceitos já sedimentados no consciente de vários povos para melhor aceitação de sua doutrina.

Exatamente o que fizeram com os ovos. Como já eram símbolos consagrados de renascimento desde a antiguidade (ovos de avestruz decorados com ouro e prata eram comumente encontrados em tumbas sumérias e egípcias e não podemos esquecer das pessankas ucranianas), a Igreja desenvolveu a seguinte alegoria: os ovos representam o sepulcro de Cristo que, assim como o pintinho deixa a casca morta para nascer, deixa a tumba vazia para ressuscitar. Para reforçar a metáfora, passaram a benzer e pintar a casca de vermelho, simbolizando o sangue de Jesus.

 

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Padre consagra centenas de ovos vermelhos nas celebrações de Páscoa na Bulgária. Fonte: http://news.bbc.co.uk/2/hi/in_pictures/4914260.stm

Daí a juntar ovos com coelhos, dois dos mais poderosos símbolos de fertilidade, foi um pulo (sem trocadilhos) e assim nasceu o mito  que originou o coelho da Páscoa como conhecemos hoje: transformado pelo consumismo em ícone rentável de enorme sucesso, principalmente entre o público infantil, graças ao seu casamento com o chocolate.

Se você faz questão de uma Páscoa cientificamente correta, o melhor seria optar pelos dois  únicos mamíferos capazes de pôr ovos (quer algo mais mágico que isso?). Senhoras e senhores, a versão Trilha do Ornitorrinco de Páscoa e Equidna de Páscoa, nossos adoráveis monotremados!

 

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Piadas a parte, se as fontes não favorecem o mito da Deusa saxã Eostre, o mesmo não se aplica a Ishtar, divindade assíria amplamente documentada. Ishtar também se pronuncia da mesma forma que “páscoa” em inglês, mas significa “A Rainha do Céu”. Neste mito, como em muitos outros, a divindade em questão tem origem humana e posteriormente se proclama Deusa.

Tudo começa há 3500 anos antes de Cristo nascer. O rei Nimrod (que significa “rebelde”), é filho de Cush, que é filho de Cam, filho de Noé. O reinado de Nimrod incluía as cidades de Babel, Ereque, Acádia e Calné (Gênesis 10:10), estendendo seu território inicial até a Assíria.

Nimrod, descendente do filho caçador de Noé, em oposição ao filho pastor (Sem), é o próprio arquétipo do caçador/conquistador que Javé, Deus de Noé, condena. O que não faz sentido quando comparamos a desdenha das ofertas de Caim (colheitas de seu trabalho árduo como agricultor) e aceitação das de Abel (sacrifício de um inocente cordeiro). Esse Deus gosta ou não de sangue, afinal?

 

Recomendamos fortemente o filme Noah (2014), de Darren Aronofsky, que lança um olhar muito interessante acerca de todo o simbolismo do sangue e do homem caçador, bem como o livre arbítrio.

Recomendamos fortemente o filme Noah (2014), de Darren Aronofsky, que lança um olhar muito interessante acerca de todo o simbolismo do sangue e do homem caçador, bem como o livre arbítrio.

Pois bem, Nimrod era considerado persona non grata em textos bíblicos porque, revoltado por Deus ter enviado o Dilúvio, resolveu afrontá-lo ao erguer a famosa Torre de Babel às alturas para que nunca mais um dos seus tivesse que se preocupar com afogamentos por ira divina.

Acontece que Nimrod era casado com Semiramis e, enquanto ele se dedicava a guerras e conquistas de território (caçador/predador), a rainha se ocupava em formular uma religião própria. A religião de Noé e de seus predecessores dizia que um dia O Um viria para sofrer, morrer e livrar a humanidade da maldição do pecado, se tornando O Senhor de toda a Criação. Semiramis só fez acrescentar que uma criança nasceria de uma Mãe Divina, suplantando Deus e se tornando um Deus.

Vale lembrar, até então Jesus ainda não havia nascido. Então todos esperavam O Um das profecias que, teoricamente, poderia surgir de qualquer lugar! Semiramis tirou proveito disso. Ela tinha um filho bastardo que constantemente era o motivo de “desarmonias”, pra ser sutil, com o rei. Essa criança, Damu (Dammuzi na antiga língua babilônica, Tammuz em hebreu e, por sincretismo, Adonis para os gregos), era filho, dizem as más línguas, do alto sacerdote do reino. A rainha mantinha toda a classe sacerdotal sobre seu domínio e os incumbia de modificar as antigas profecias de modo convincente para a população (onde foi que eu já vi isso…).

Quando a situação com o rei ficou insustentável, Semiramis acabou matando Nimrod quando Damu (que significa “sangue”) ainda era apenas um bebê. Já Nimrod era um quarentão e, segundo costume local, era guardado luto de um dia por cada ano de vida do morto: 40 dias, no caso (parece familiar?).

Depois dos 40 dias de homenagens e lamentações, a rainha achou que o povo já estava pronto para uma celebração e, com a ajuda dos sacerdotes, declarou Nimrod como ressurgido dos mortos e reencarnado em seu filho, o Deus Damu. Como só um Deus pode gerar outro, ela também se proclama Deusa. Os sacerdotes fizeram bem o seu trabalho e, em pouco tempo, nascia o mito: após a morte de Semiramis, ela ascendeu aos céus e depois retornou à terra como um grande ovo que caiu no rio Eufrates. Salvo por uma pomba, o ovo chocou e de lá saiu a Deusa ora conhecida como Ishtar (forma assíria original), ora como Inanna (equivalente suméria) e depois Ísis (egípcia), todas arquétipos do Sagrado Feminino, faces da fertilidade no consciente coletivo. Em agradecimento, Ishtar transforma a pomba em uma lebre que põe ovos (num paralelo, temos Eostre salvando o pássaro e Ishtar sendo salva por ele. Mas os elementos continuam os mesmos).

 

O alto relevo Queen of the Night, "Rainha da Noite", é uma peça em terracota com origens no período babilônico exibida no Museu Britânico. Se ela representa Lilith, Ishtar/Inanna ou Ereshkigal, ainda está em debate. Fonte: wiki.

O alto relevo Queen of the Night, “Rainha da Noite”, é uma peça em terracota com origens no período babilônico exibida no Museu Britânico. Se ela representa Lilith, Ishtar/Inanna ou Ereshkigal, ainda está em debate. Fonte: wiki.

Os 40 dias de luto antes da festa de ressurreição do rei Nimrod/ Deus Damu e a quaresma que antecede a Páscoa são coincidências? Bem, cada um crê no que quer. O fato é que em 325 dC, o Concílio de Nicéia foi convocado pelo imperador Constantino. Pasme mas, naquela época, os cristãos ainda não celebravam oficialmente a Páscoa. Assim como os judeus, antes da primavera eles celebravam o “Passover”, Pesach, como Jesus havia ensinado, segundo Lucas (22:14-20).

Constantino estava num mato sem cachorro, tendo que agradar a uma legião muito heterogênea de religiosos: dezenas de versões diferentes de evangelhos, cada um que dissesse ser o verdadeiro portador das palavras de Deus (algumas coisas não mudam, não é?). Cristãos, judeus e pagãos competindo pra ver quais costumes eram “certos” e deveriam ser mantidos. Crenças sendo absorvidas e reinterpretadas naturalmente por populações distintas. Toda essa desordem era uma ameaça para a autoridade do imperador romano, e ele saiu-se com a seguinte estratégia diplomática:

Não tem jeito, todo ano esses pagãos celebram a renovação da Vida da terra com a chegada da primavera! Isso está entranhado muito fundo na cultura deles. Fora de questão proibí-los de comemorar. O que vamos fazer é substituir algumas coisinhas aqui e ali…

 

Estátua de Constantino em York-UK, antiga Eboracum, lugar onde foi proclamado imperador.

Estátua de Constantino em York-UK, antiga Eboracum, lugar onde foi proclamado imperador. Fonte: http://descubreyork.co.uk/

 

Assim, fez todo o sentido estabelecer que a data escolhida para comemorar a ressurreição de Cristo coincidisse com os seculares festivais primaveris da colheita e de renascimento de Deuses e Deusas da fertilidade.

O Concílio de Nicéia estabeleceu que a Páscoa deveria ser celebrada no primeiro domingo depois da lua cheia antes ou durante o equinócio de primavera. Específico, não? A Páscoa Cristã cair numa noite de lua cheia seria pagão demais, tudo tem limite! E para se distanciar ainda mais do culto feminino lunar, teria que cair num domingo (sunday – dia do sol). Mas o coelho e os ovos, símbolos consagrados desde tempos imemoriais, seriam mantidos. Assim como o nome Easter, originado de Ishtar, para agradar aos numerosos tementes à Deusa assírio-babilônica.

Pela primeira vez, a Páscoa era um rito Cristão oficial, substituindo o Passover das escrituras originais. Com símbolos absorvidos e recodificados. Um exemplo dramático da recodificação é a suástica, símbolo místico solar presente em várias culturas que hoje evoca os terrores do nazismo.

Símbolos não possuem um dono único. São representações do inconsciente que afloram em épocas e contextos diferentes, que sofrem adaptações e transmutam seus significados para, muitas vezes, exatamente o oposto.

Portanto, creia no que quiser e ensine a seus filhos o que achar certo. Mas não clame com tanta revolta a posse de símbolos como sendo exclusivos da sua religião. Toda religião é uma colcha de retalhos históricos. Achar que apenas os seus dogmas estão certos e as demais pessoas vivem na ignorância é soberba; e isso, segundo os ensinamentos do seu próprio Deus, caro cristão, é pecado.

 

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Antes de culpar o “toelho miselável”, meça suas acusações, velhinho! Tumblr. Reprodução.

 

Quer a sua Páscoa seja em honra de Eostre, Jesus, Ishtar, a Mãe Natureza ou qualquer outro, tenha em mente que são todas emanações da mesma Fonte – O Espírito do Universo. Celebremos o renascimento da tolerância com os que crêem e com os que não crêem.

E, se você é ateu… aproveite o chocolate!

 

Lançamentos da Páscoa 2015 e ovos tingidos a mão. Fonte das imagens: Tumblr

Lançamentos da Páscoa 2015 e ovos tingidos a mão. Fonte das imagens: Tumblr

 

 

 

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