Australopitecos, Neandertais, Cro-Magnon. Volta e meia nos deparamos com alguma descoberta arqueológica acerca deles. E cada vez que isso acontece, a cronologia de sua aparição, apogeu e extinção fica mais confusa. Cada vez mais aparecem indícios de que algumas espécies coabitaram o planeta na mesma época, inclusive procriando entre si.

Mas o H. Sapiens levou a melhor. Por enquanto. Pra começar, não é totalmente correto afirmar que os Neandertais foram extintos. Na verdade, eles vivem em muitos de nossos genes.

 

Ah vá, vai dizer que não se parecem com alguém que você conhece? (Reconstrução artística de H. sapiens e H. neanderthalensis no Museu de História Natural de Londres)

Ah vá, vai dizer que não se parecem com alguém que você conhece? (Reconstrução artística de H. sapiens e H. neanderthalensis no Museu de História Natural de Londres)

A espécie Homo neanderthalensis (que para alguns estudiosos é considerada uma subespécie da nossa – Homo sapiens neanderthalensis), após vários cruzamentos com os Cro-Magnon, teve sua carga genética tão diluída que, visualmente, muito pouco deles prevaleceu nas gerações seguintes (A série de livros Earth’s Children, de Jean M. Auel, explora as interações entre os Cro-Magnon e Neandertais, proporcionando insights brilhantes sobre a evolução da fala e da memória). Os Cro-Magnon e seus mestiços, mais adaptados tanto para a sobrevivência quanto para subjugar outras raças, propagaram seus genes com muito mais sucesso. Até serem desbancados por, bem, nós.

O mediador desse processo, o fator que decide quais características têm mais chances de serem bem sucedidas, sempre foi o ambiente no qual vivemos. Primeiro a postura ereta (Homo erectus) livrou nossas mãos do chão e desenvolvemos polegares opositores para melhor manipular ferramentas. Isso nos favoreceu na caça. O fogo nos proporcionou cozinhar alimento e obter muito mais calorias do que precisávamos para nos manter. Com essa energia “de sobra”, segundo os cientistas, nossos ancestrais expandiram sua caixa craniana, permitindo o desenvolvimento, em conjunto com outros fatores, do raciocínio lógico e, finalmente, abstrato – a noção de “eu”. O homem que SABE que sabe: subespécie Homo sapiens sapiens.

 

“Metidos esses Sapiens, né amor?” Reconstrução artística de H. ergaster no Museu de História Natural de Nova York (http://everydayprimate.org)

“Metidos esses Sapiens, né amor?” Reconstrução artística de H. ergaster no Museu de História Natural de Nova York (http://everydayprimate.org)

Há um fator que quase nunca é mencionado que contribuiu e muito para nossa evolução: somos e sempre fomos seres híbridos, misturados, miscigenados. E daí? Outros animais também são. Mas de onde vem a capacidade humana de conseguir habitar qualquer ambiente, desde desertos a geleiras? De poder comer praticamente qualquer alimento? Há algo mais do que postura, dedões, fogo e cabeça grande na receita da espécie mais versátil do planeta: diferentes hominídeos, vindos de todos os continentes e moldados por cada clima, cada um com traços genéticos únicos e estratégias diferentes desenvolvidas para cada necessidade. Primeiro o ambiente os dispersou, os moldou e depois os uniu. E a riqueza desse intercâmbio de genes e ideias nos fez como somos hoje. Para o bem e para o mal. Como sempre foi.

 

Diversidade brasileira (commons.wikimedia.org/wiki/File:Brazilians.jpg)

Diversidade brasileira (commons.wikimedia.org/wiki/File:Brazilians.jpg)

E cá estamos, na iminência de dar o próximo passo. Em sua palestra no TedEx 2009, Juan Enriquez, CEO na Biotechonomy – firma que pesquisa impactos políticos e econômicos da Ciência – cunhou o termo Homo Evolutis. Segundo ele, num futuro próximo o suficiente para ser a realidade de nossos netos, a manipulação genética e programação celular alcançará níveis refinados o suficiente para permitir à humanidade controlar o próprio destino biológico.

Sua profecia se concretiza dia após dia, com as notícias da comunidade científica que parecem enredos de filme: Doenças hereditárias têm seus genes extirpados do código DNA. Já é possível obter um óvulo de células masculinas e espermatozóides de células femininas. Deficiências congênitas são supridas. Gerações inteiras são customizadas com genes desejáveis por seus pais e avós. Códigos de regeneração celular programada implantados em nosso genoma restauram nossos órgãos e duplicam nossa expectativa de vida.

No início do processo, as melhorias só seriam acrescentadas pós nascimento. Mas com o aperfeiçoamento e acesso às técnicas de manipulação genética, as pequenas alterações artificiais seriam passadas naturalmente a nossos descendentes. Que por sua vez incorporariam modificações mais avançadas e assim por diante.

Assim, o “homem que sabe que sabe” se transformaria no “homem que sabe evoluir” – Homo sapiens evolutis – transferindo para seu próprio livre arbítrio o papel de mediador da evolução que antes pertencia ao ambiente. Enriquez só esqueceu de mencionar um fator: quem vai ter acesso a essa Evolução?

Levando em conta quanto custa hoje uma simples fertilização in vitro, desconfio que a manipulação dos seus próprios genes será proibitiva para os menos abastados.

Os que não tiverem condições de pagar pelos upgrades, continuarão a ser moldados pelo ambiente. Os que tiverem, terão a ilusão de “moldar a si próprios”, mas, na prática e em larga escala, serão moldados pela diminuta parcela que domina as riquezas do planeta.

Um cenário muito parecido com a temporada de convivência entre os Neandertais e os Cro-Magnon se desenha: duas subespécies (Sapiens e Evolutis) próximas o bastante para gerar descendentes viáveis, mas com diferenças suficientes para tomar rumos inesperados na evolução humana.

Fora as complicações éticas: já imaginou os Sapiens se declarando “os puros”, “os verdadeiros herdeiros da Terra” que precisam livrar o mundo da sanha do homem de querer se equiparar a Deus? Ou os Evolutis enxergando os Sapiens como inferiores, ultrapassados, dignos de pena?

Ah – dirão alguns – mas os Evolutis eventualmente procriarão com os Sapiens. Daí enriquece o gene pool de todo mundo e viramos, de novo, a mesma subespécie. Alguns sim. Mas, analisando a mobilidade social vigente em nossa sociedade, a maioria vai permanecer no seu círculo social. Sempre existirão populações à margem. Pareço pessimista?

Ora, os laboratórios não vão fazer isso de graça e, para vender o seu produto, irão forçar a segregação: “como assim você ainda tem juntas fracas? Ainda não fez o seu upgrade ósseo? Usufrua da tecnologia e evolua!” (é impressionante a quantidade de vezes que o termo evolution é empregado nos mais diversos setores de marketing). Quem iria querer ficar para trás? E os que ficarem… bom, não é culpa sua, não é mesmo? Você pode até aproveitar a situação para levantar uma grana: vendendo seus óvulos/espermatozóides contendo o DNA “super premium”, com décadas de aperfeiçoamentos, para quem quiser um bebê Evolutis. Mas essas células seriam suas para vender? Como você acha que as empresas contornarão essa fuga de capital? Leia a letra miúda quando for assinar o contrato.

 

Evolução ao alcance de "todos"

Evolução ao alcance de “todos” (colagem)

Sempre existirão populações excluídas. E isso não é algo essencialmente ruim se considerarmos a possibilidade de uma virada, um plot twist digno de Hollywood onde os  Sapiens evoluem de forma alternativa e passam a perna nos upgrades artificiais dos Evolutis. Com as forças do mundo natural domadas, seria perfeitamente possível que esta disputa tivesse um desfecho diferente da dos Cro-Magnon x Neandertais. Vejamos algumas fases da evolução humana (quem joga Spore sabe como é difícil passar por cada uma), já com a hipótese de Enriquez:

 

1. Seleção pelo ambiente
(META: sobreviver) Australopitecos e demais hominídeos primitivos

2. Seleção pelo ambiente + espécies rivais 
(META: conquistar) de Cro-Magnon x Neandertal até Europeus x populações africanas e indígenas

FASE DE TRANSIÇÃO  <<<< você está aqui!

3. Seleção pelo ambiente + segmentos da própria espécie
(META: aperfeiçoar) Sapiens x Evolutis

 

A maioria dos animais se encontra na fase 1. Quando uma espécie exótica é inserida em ambiente estranho, o desequilíbrio de nichos pode fazê-los passar à fase 2, mas, ao contrário de nós, eles não têm consciência disso.

A estratégia evolutiva de alguns animais nos dá pistas interessantes, como na introdução do filme Lucy (2014), de Luc Bessom. Nele, o Morgan Freeman interpreta um pesquisador que faz a seguinte comparação:

Golfinhos, através de milênios de evolução, desenvolveram um sonar próprio. O sonar faz parte deles e todo golfinho nascerá sabendo instintivamente a usá-lo.

Humanos, num período consideravelmente mais curto, desenvolveram um sonar extra corpóreo artificial – uma ferramenta – cujo conhecimento e domínio não nos é inato.

 

Não é a primeira vez que Freeman se envolve com golfinhos - Dolphin Tale (2011)

Não é a primeira vez que Freeman se envolve com golfinhos – Dolphin Tale (2011)

Sonar do submarino USS Dolphin  (http://subnacho.blogspot.com.br/2010/08/el-ojo-acustico-del-submarino-el-sonar.html)

Sonar do submarino USS Dolphin (http://subnacho.blogspot.com.br/2010/08/el-ojo-acustico-del-submarino-el-sonar.html)

Como o filme é sobre o que poderia acontecer se usássemos integralmente a capacidade total de nossas mentes, Freeman argumenta que resolver todos os problemas com tecnologia está atrofiando outras áreas de nosso cérebro (como o subconciente) e arremata com a frase:

 

“Seres humanos estão mais preocupados em TER do que SER”


Ainda no reino animal, considere a tarefa “capturar formigas para comer”:

90_Awesome_Anteater_Tongue

Tamanduá (http://buzzinn.net/strangest-and-rarest-animals-in-world/2/ )

 

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Chimpanzé (https://soa111.wordpress.com/2010/09/27/chimpanzees/ )

 

Ambos atingem seus objetivos mas, usando uma simples ferramenta, o chimpanzé se apropria do nicho ecológico de comedor de formigas/cupins que o tamanduá levou milênios para conseguir. Parece trapaça evolutiva, não é?

No entanto, o tamanduá não precisa aprender a pegar formigas. Já no bando de chimpanzés, se os jovens não observarem como os mais velhos manejam o graveto de forma eficiente, pode se passar muito tempo até algum deles ter outra vez a brilhante ideia de cutucar um formigueiro com uma ferramenta.

É justamente o risco que corremos. O homem chegou à Lua, mas quantos de nós conseguem construir um motor por conta própria? Ou calcular o tempo como os mayas?

Nossa organização social nos permitiu muitas façanhas, mas também nos restringe. Se um desastre de proporções cósmicas se abater sobre a Terra, golfinhos continuarão suas vidas normalmente. O mesmo não pode ser dito de nós sem energia elétrica e internet. A dependência de ferramentas para cada ínfima tarefa (que o diga o controle remoto) e o armazenamento de dados fora do cérebro nos deixaram muito mal acostumados. É de se pensar o que o poder de manipular os próprios genes acrescentaria a esse efeito.

Será que esses upgrades genéticos nos tirarão a chance de evoluir de forma mais plena ou apenas fazem parte de mais uma revolução natural em nosso percurso, como a fala, a escrita e a internet?

 

 

"A mente intuitiva... (Tumblr. Reprodução)

“A mente intuitiva é uma dádiva sagrada e a mente racional é um servo confiável. Criamos uma sociedade que honra o servo e se esqueceu da dádiva” – A. Einstein (Tumblr. Reprodução)

O ser humano contemporâneo é um animal praticamente desprovido de instintos. É o preço que se paga por evoluir muito mais apenas um dos aspectos da mente em detrimento das outras.

Enquanto juramos que o nosso modo de evoluir é o melhor do planeta em todos os sentidos, cientistas acabam de descobrir que a Doryteuthis pealeii, uma espécie de lula, consegue recodificar 60% de suas transcrições de RNA em resposta ao ambiente espontâneamente sem precisar de nenhuma ferramenta. É isso mesmo. Não foi um golfinho nem um chimpanzé; o Lula Molusco acaba de nos passar a perna! A estratégia das lulas parece estar dando certo porque, além de possuírem complexidade comportamental rara em moluscos, estão entre as poucas espécies com populações estáveis, apesar da intervenção humana nos oceanos e no clima.

Não existe maneira “mais eficiente” de evoluir. Apenas caminhos diferentes. Humanos passam suas habilidades e conhecimentos para as próximas gerações e, portanto, são dependentes da cultura. Seria igualmente vantajoso ser dependente da manipulação genética?

O que muitos têm sentido é a sensação de que a raça humana está numa fase de transição importante. Até aqui evoluímos de maneira absurdamente rápida em termos de eras terrestres. Devemos continuar deixando o ambiente nos moldar ou tomamos as rédeas de nossa evolução? Nossa mente deve acompanhar o ritmo da evolução de nosso corpo ou apenas a evolução da mente é necessária? Devemos nos lançar cada vez mais na conquista do Espaço ou nos reconectarmos com a Terra? Permaneceremos unidos biologicamente como espécie ou alguma subespécie será superada e extinta?

 

"Homo evolutis o caramba..." (Tumbler. Reprodução )

“Homo evolutis o caramba…” (Tumblr. Reprodução )

 

Eventualmente, controlaremos boa parte de nossos genes, faremos colônias interestelares e vamos quicar de planeta em planeta esgotando recursos como uma praga. Mas por mais que os humanos creiam estar moldando o próprio destino, a Vida sempre tem um recadinho pra dar:

 

(Tumbler. Reprodução)

Não contavam com minhas mutações (Tumblr. Reprodução)

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