Tillandsias são bromélias mágicas que não precisam de solo e quase nenhuma rega para sobreviver. Elas transmutam o elemento ar em terra e água. E, claro, cientistas são atraídos por coisas mágicas como formigas por mel. E para que? Para explicá-las. Como se algo que possui explicação científica deixasse de ser mágico.

Como diz o samba, “desde os tempos mais primórdios”, a humanidade se inspira na natureza. Taí Leonardo daVinci com suas máquinas voadoras inspiradas em pássaros e morcegos que não me deixa mentir. O que na época era “inspiração na natureza”, sofreu um revival após um período extremamente industrial e hoje virou uma ciência: a Biomimética – estratégia que busca solucionar problemas copiando formas e comportamentos biológicos.

Um dos exemplos mais famosos de artefato inspirado na biologia é a invenção do velcro, em 1941, pelo engenheiro suíço Georges de Mestral após observar e analisar as se­mentes de Arctium (o popular carrapicho) que aderiam com extrema facilidade a suas roupas.

Não se sabe ao certo o limite do que seriam soluções criadas essencialmente pela humanidade e quais seriam soluções inspiradas na natureza, uma vez que, inserido no ambiente natural, todos os modelos de cognição humana, de certa forma, têm origem biomimética.

 

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Arame e gavinha de trepadeira. Analogias entre tecnologia humana e estruturas biológicas. Imagem: http://media-cache-ec4.pinimg.com/originals/19/73/e9/1973e951b322987f48cd452e73fa9b12.jpg

 

Pegue o seguinte exemplo: um povo primitivo começa a desenvolver técnicas de cestaria baseados propositadamente na construção de teias de aranha, como na imagem abaixo. O que pode nos dar certeza de que o que os inspirou foi, de fato, a teia de aranha? O que nos garante que, nos primórdios da humanidade, pessoas não acabaram criando a primeira tecelagem com fibras apenas as manuseando despretensiosamente, seguindo padrões instintivos?

 

Ilustração: Doczi, 1990. Teia: wikipedia.org. Cestaria: artesol.org.br

Ilustração: Doczi, 1990. Teia: wikipedia.org. Cestaria: artesol.org.br

Decifrar esta charada do tipo “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha” é assunto dos mais interessantes sobre o nosso passado como civilização. Pessoalmente, acredito em evoluções diferentes em diversas partes do planeta: que existiram mestres em cestaria que se inspiraram em organismos biológicos propositadamente e que houve, também, artesãos que “inventaram” tramas próprias seguindo seus subconscientes. Mas o subconsciente também não é influenciado pelo mundo natural que nos cerca? Bem, temos muito poucas pistas em relação a estas origens e a luz no fim do túnel, se é que há uma, dependeria de esforços conjuntos de várias áreas, como antropologia e psicologia.

Agora, quanto às Tillandsias. Elas são muito mais do que a última febre em questão de plantas fáceis de se manter em casa.

Bromélias são plantas fascinantes por uma série de motivos, a começar por sua natureza epífita, ou seja, o hábito de usar outras plantas como suporte sem, no entanto, prejudicar em nada o desenvolvimento das árvores que escolheram como o seu lar doce lar.

Como não são parasitas, só usam as raízes para se fixar. O formato de suas folhas e posicionamento estratégico na copa das árvores é que garante seu suprimento de água: as gotas escorrem até a coroa da planta, onde as folhas se juntam formando uma espécie de funil onde a água acumula como em um reservatório. Ao contrário de muitas plantas cujas folhas apodrecem se ficarem em contato com água por muito tempo, as bromélias podem ficar com água represada indefinidamente, oferecendo uma maternidade perfeita para vários tipos de organismos, principalmente os ameaçados anfíbios.

Um grupo de espécies de bromélia, o chamado gênero Tillandsia (veja algumas espécies no Flickr), desenvolveu uma adaptação ainda mais eficiente para captar a umidade do ar em áreas de pouca precipitação.  O truque da Tillandsia consiste em ter toda a superfície de suas folhas recoberta por minúsculas estruturas, os tricomas, que têm formatos muito especializados em diversas espécies de plantas. Os tricomas de algumas plantas carnívoras, por exemplo, são mini hastes com material viscoso na ponta, responsáveis por capturar insetos. Já os tricomas da Tillandsia são do tipo escama e atuam na otimização de captação de água: alguns se parecem com guarda-chuvas ao contrário, com ranhuras que “guiam” as micro gotículas em suspensão no ar para seus estômatos – diminutas aberturas nas folhas das plantas que funcionam como “bocas”. Além de captar, a cobertura de tricomas também dificulta a perda de água. São válvulas unidirecionais: deixam a água entrar, mas não sair.

 

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http://plantsinaction.science.uq.edu.au/edition1//?q=node/461#814

Graças a essa capacidade de sobreviver sem a necessidade de solo algum, capturando apenas seu sustento em micronutrientes presentes na umidade do ar, as tillandsias são conhecidas como “air plants” (plantas do ar ou atmosféricas).

A olho nu, os tricomas se parecem com pelinhos brancos, o que faz com que várias espécies do gênero aparentem ter uma coloração verde prateada e serem “aveludados” ao toque.

A observação mais detalhada com o microscópio digital (você pode ver o modelo usado nesta observação aqui) nos revela a surpreendente organização dessas estruturas em algumas amostras:

 

TILLANDSIA RECURVATA – não, não são ninhos de passarinho nos fios de eletricidade. É uma espécie de bromélia extremamente bem adaptada! Já reparou que costumam ser avistadas muito mais em cidades de interior do que nos grandes centros? Seus delicados e eficientes tricomas são prejudicados pela poluição no ar das metrópoles: acabam captando partículas tóxicas em vez de nutrientes. Por essa razão, tillandsias já foram usadas em estudos de biomonitoramento atmosférico. As imagens em detalhe dos tricomas foram conseguidas com uma ampliação de 200x.

 

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TILLANDSIA CYANEA – esta espécie de bela floração não possui tricomas bem desenvolvidos e, para compensar, parece apresentar estômatos muito maiores. Assim, fica “de boca bem aberta” para captar a umidade, razão pela qual pode ser regada como planta comum de jardim (porém sem encharcar seu substrato, que deve ter excelente drenagem – como o de orquídeas). Por sua beleza, é facilmente encontrada em floriculturas, como foi o caso desta amostra.

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Algumas outras espécies:

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A observação destas plantas, claramente bem adaptadas, pode nos render vários “insights” para aplicações biomiméticas com o objetivo de captar umidade. Em tempos de escassez de água, a falta desse recurso cada vez mais precioso preocupa governos, instituições e centros de pesquisa, que já estão mobilizando estudos em busca de alternativas viáveis para o problema.

 

CURIOSIDADE: O percevejo de cama (gênero Cimex), com a crescente resistência de pragas a inseticidas, tem se tornado um problema de grandes proporções. Cientistas ficaram intrigados com a mágica que certas populações rurais faziam (documentada por John Locke em 1678) para se livrar dos bichinhos: espalhavam folhas de uma variedade de feijão comum (Phaseolus vulgaris) pelo chão do quarto de noite e no dia seguinte era só queimar essas folhas. Acontece que os tricomas da folha são desenhados especialmente para prender as diminutas patas dos percevejos de tal maneira que o inseto é incapaz de se desvencilhar! Num estudo em conjunto das universidades da Califórnia, Irvine e Kentucky, equipes estão desenvolvendo um material sintético que copie com fidelidade a precisão dos tricomas de folha de feijão.

 

Com a impressão 3D, diminuíram consideravelmente obstáculos para a concepção de estruturas que mimetizem os tricomas das air plants desde escalas micro até o tamanho de telhas , que podem ser aplicados em superfícies estratégicas, como revestimentos de vasos de plantas (que assim precisariam de menos regas), condutores de eletricidade otimizados pela umidade constante, equipamentos de captura de partículas nocivas, telhados que absorvem orvalho etc.

Impressas em materiais naturais ou sintéticos, é grande o potencial que a estrutura das Tillandsias tem a nos oferecer. Resta-nos a gratidão por este gênero de plantas excepcionais, buscando a conservação de seu ambiente e divulgando ao máximo a importância de seu patrimônio biológico.

Um brinde às bromélias com batida de abacaxi, seu representante mais ilustre (Ananas comosus)!

 

 

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